sábado, 31 de outubro de 2009

No pasa nada

Volto a escrever sobre futebol no dia em que o meu Benfica perdeu o primeiro jogo do campeonato.
Um jogo difícil, contra um Braga poderoso e incómodo em todos os aspectos, incluindo os truques baixos da provocação e das fitas à moda antiga.
Tudo correu bem ao Braga, tudo correu mal ao Benfica. Acontece.
No entanto, fiquei com a clara convicção que, num jogo que podia ter caído para qualquer lado, a equipa até esteve bem, lutou e tentou tudo. Foi uma derrota na qual a equipa saiu de cabeça erguida.
Tudo como dantes, portanto. Esta equipa vale muito mas não é imbatível, como nenhuma é. E com a atitude que demonstraram e com a qualidade que inegavelmente tem, ainda vai dar muitas alegrias aos milhões de benfiquistas.

PS: o sr. Jorge Sousa mostrou cedo ao que ia. Um golo limpinho anulado ao Benfica, que daria o 1-1 antes do intervalo, a juntar à expulsão perdoada ao João Pereira quando estava 1-0. Ao intervalo expulsa um gajo de cada lado: o melhor marcador do campeonato do nosso lado, um tal de Leone do outro. O que as imagens mostram é que, para além da parede de empurrões, há apenas uma agressão bem visível: um suplente do Braga que agride Cardozo à entrada do túnel. Que eu saiba nem amarelo viu.
Serve também de lição. Com metade do país futebolístico demasiado assustado com o ressurgimento do Benfica, as manobras de bastidores não tardaram e prometem continuar.
Para sermos campeões não basta sermos melhores que o adversário. Temos de ser tão melhores que nem todos os árbitros da fruta nos possam parar.

Logo veremos se conseguiremos vencer, contra tudo e contra todos.  

Constantino Sakellarides


Gosto.

O dia da saia


Domingo, fim do mês, 16h29, o filme está prestes a começar, já estou a 40€ negativos na minha conta-ordenado, felizmente a minha carteira parece a de um arrumador de carros do Príncipe Real, conto moeda a moeda e descubro feliz que tenho exactamente os 11€60 que são precisos, dois bilhetes para o dia da saia, se faz favor, desculpe, mas são 12€60, há uma taxa adicional de 50 cêntimos por bilhete porque o filme é projectado numa sala Vip, filhos da puta, entretanto já são para aí 16h32, lá vou eu ter que pagar por cartão, pagando mais juros aos cabrões dos agiotas do meu banco, em mais uma justa transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos, taxa robim dos bosques ao contrário, cabrões do caralho, e lá descemos amuados para a dita sala Vip, olho para o bilhete para ver o número da sala, mas a funcionária da sala Vip diz que é aqui, comento, deve ser adivinha, responde, não, trabalho aqui, depois deste personalizado atendimento Vip, entramos numa sala minúscula com para aí 16 lugares, sentamo-nos de facto em cadeiras mais largas e mais confortáveis, mas é impossível deixar de pensar que o cabrão que fez o plano de negócios dos cinemas das Amoreiras teve que recorrer à taxa "roubar 50 cêntimos a estes papalvos" para que salas tão minúsculas tivessem a mínima rentabilidade financeira, adiante, as apresentações já começaram a muito, e pouco tempo depois rendi-me por completo à sala Vip, primeiro pela magnífica curta-metragem portuguesa, deus não quis, um filme potentíssimo de denúncia à guerra colonial, sem recorrer a um único diálogo, depois pela esplêndida longa-metragem, o dia da saia, com a esplendorosa Isabelle Adjani, filme quase todo passado dentro de uma sala de aula de uma escola nuns subúrbios complicados de Paris, com uma horda de alunos desmotivados, indisciplinados, insolentes, agressivos e alguns já delinquentes que desqualificam e humilham diariamente uma professora à beira dos seus limites, já encharcada em anti-depressivos, até que, na confusão da entrada desordenada na sala de aula e numa disputa de uma mochila, uma pistola cai ao chão, a professora em pânico pega na arma para a entregar ao reitor, e o dono da arma intimida-a para ela a devolver, e é partir daqui, que a professora, já há demasiado tempo no fio da navalha, descompensa por completo e pela primeira vez na vida consegue dar uma aula normal, apontando a arma à cabeça dos alunos cada vez que estes não são colaborantes, repondo com a pistola a autoridade impossível de a ter sem a mesma, estamos ainda no princípio do filme e mais não conto para não vos estragar aquele que para mim foi o grande filme de 2009, completamente ignorado por todos os holofotes, todos eles dirigidos para pseudo-polémicas ridículas como a do último livro do Saramago, manual de maus costumes são os media que temos que sobrevalorizam o acessório e ignoram o essencial, desprezando por completo um filme inteligente que não só nos prende do primeiro ao último segundo, pela sua tensão permanente, e pelo contágio para o espectador da ansiedade e claustrofobia de todos os personagens, cada um à sua maneira no fio da navalha, como obriga o espectador a pensar sobre as relações complexas que existem entre escola, problemas sociais, media e política, em que muito injustamente a escola, como diz um dos personagens, é encarada por todos como um penso rápido para problemas sociais que a transcendem por completo, foi bem justa afinal a puta da taxa Vip

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Manual de Sobrevivência de um Opinion Maker

Finalmente descodifiquei o pensamento do Miguel Sousa Tavares, do Vasco Pulido Valente e do Miguel Esteves Cardoso e, por arrasto, de grande parte dos opinion makers. Por definição, um fazedor de opinião não se pode limitar a reproduzir a opinião dominante, tem que fazê-la. Acontece que criar perpetuamente novas ideias relevantes sobre a espuma dos dias a um ritmo diário ou semanal é estupidamente difícil, mesmo para o génio de um Miguel Esteves Cardoso. Para sobreviverem nas condições adversas deste habitat, os opinion makers são obrigados a desenvolver estratégias comuns de economia do pensamento. Não os condeno: seres vivos com estratégias pouco económicas de sobrevivência costumam ser espezinhados pelos seres vivos com estratégias mais económicas de sobrevivência. Aqui não há moral, há apenas a lei do mais forte. E foram estes espécimes, e não outros, os sobreviventes.

A fórmula é surpreendentemente simples. Consiste, numa primeira etapa, em pensar qual a opinião que uma pessoa sensata e inteligente teria sobre o assunto a opinar; para, numa segunda etapa, defender a opinião exactamente oposta, realçando as fragilidades da posição sensata e omitindo as suas forças.

Concretizemos um pouco. Vamos imaginar que o Vasco Pulido Valente queria discorrer na sua coluna do Público sobre a reivindicação dos monárquicos em se referendar o regime republicano.

Etapa 1. Uma pessoa sensata e inteligente diria o seguinte:

"A monarquia é intrinsecamente antidemocrática, porque: (a) viola o princípio da igualdade, uma vez que só os membros de uma família podem aceder ao poder real; (b) viola o princípio da soberania do povo, uma vez que o rei não é escolhido pelo povo, mas pelo seu sangue; e (c) viola o princípio da transitoriedade do poder, uma vez que a família real se eterniza no poder por sucessão dinástica. Deste modo, não faz qualquer sentido referendar-se numa democracia a transição para um regime manifestamente menos democrático. E, mesmo que fizesse sentido, os votos residuais no PPM devem ser lidos enquanto um referendo implícito à monarquia. Um referendo explícito sobre esta matéria seria um enorme desperdício de dinheiro e, sobretudo, de agenda política: há centenas de assuntos bem mais relevantes do que este, que merecem entrar primeiro na apertada agenda política da nossa democracia."

Etapa 2. Vasco Pulido Valente defenderia o inverso desta posição sensata e inteligente (omitindo as suas forças e realçando as suas fraquezas), escrevendo qualquer coisa como isto:

"Antes de 1910, existia uma monarquia parlamentar com eleições livres e um sistema pluripartidário. O Partido Republicano candidatou-se sucessivamente a eleições livres e o povo português escolheu sucessivamente que que não o queria a governar o país. Em democracia existem vias políticas não violentas para aceder ao poder, através do voto, pelo que não é legítimo recorrer-se ao método violento da revolução. O golpe de estado de 1910 não teve, portanto, qualquer legitimidade democrática e criou um precedente grave, tornando aceitável o golpe de estado fascista que ocorreu dezasseis anos depois. Só um referendo a esta questão permitiria à República reparar o seu pecado original e refundar-se sob uma base democrática."

Já testei esta fórmula com mais de cem opiniões, revelando-se sempre infalível. Se algum cliente do tasco encontrar algum exemplo em que esta fórmula não resulte, garantimos a devolução integral desta posta inútil.

Prémio "Maior desfasamento de sempre entre a sua patética capa e o génio das suas canções"


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

As putas somos nós

Hoje, de manhã, encontrei outra vez a mesma senhora simpática de mala amarela à beira da estrada, que todos os dias encontro no caminho para o trabalho. Enquanto olhava para a subtileza do seu decote (quase me espetando contra um outdoor do MMS), ocorreu-me a seguinte questão filosófica: haverá algo intrinsecamente imoral na prostituição? Toda a inutilidade desta posta será dedicada à puta desta questão.
A minha resposta é um peremptório não. Não há nada de intrinsecamente errado no trabalho sexual. Todos os problemas que lhe estão frequentemente associados não derivam da sua essência.
Entendo prostituição enquanto uma profissão baseada num contrato livre entre um(a) profissional que aluga o seu corpo durante um determinado período de tempo para os fins sexuais acordados e um cliente que usufrui desse serviço pagando a remuneração acordada. Gostaria de destacar o elemento mais crucial da definição: o facto de toda a transação decorrer de um acordo entre duas vontades. Existindo o acordo (isto é, não existindo coacção), então cada pessoa é soberana sobre o seu próprio corpo, fazendo dele o que quiser. O importante é que em momento algum sejam violados os limites do acordo. Se toda a gente acha perfeitamente legítimo alguém alugar o seu corpo a um patrão, carregando tijolos em troca de uma remuneração acordada, por que raio é que tanta gente utiliza um critério diferente em relação ao aluguer de um corpo para fins sexuais, quando ambas as situações são legitimadas por um acordo entre as partes?
Essa tanta gente costuma argumentar que a sexualidade não é exactamente a mesma coisa do que carregar tijolos, que há algo de intrinsecamente sagrado neste campo que torna proibitiva a sua mercantilização. O contra-argumento é poderoso, já que reconheço que carregar tijolos e fornicar não são a mesma coisa (e confesso que a minha preferência recai sobre a segunda opção). Mas o facto de eu preferir tiras de milho a batatas fritas não quer dizer que eu não tenha o direito de comer ambas. O contra-argumento utilizado por-quem-não-gosta-de-putas-nem- pintadas ainda não satisfaz porque pede sempre uma questão suplementar: de onde advém o carácter intrinsecamente sagrado da sexualidade?
As respostas são diversas, mas podem essencialmente ser classificadas em dois grandes grupos: respostas religiosas e não religiosas.
Os argumentos de tipo religioso radicam sempre em algo deste género:
Se "toda a sexualidade que decorre fora do santo sacramento do matrimónio ou que não vise a procriação incorre no terrível pecado da fornicação",
E se "a prostituição decorre fora do santo sacramento do matrimónio e não visa a procriação".
Então, segue-se a inevitável conclusão lógica de que "a prostituição incorre no terrível pecado da fornicação".
Claro que o erro deste raciocínio reside na fragilidade da primeira premissa. Primeiro, porque formula um princípio só aplicável a crentes, não oferecendo nenhuma razão válida para que os ateus também se rejam pelo mesmo. Depois, porque até os próprios crentes (talvez a maioria) são suficientemente inteligentes para desconfiar dos dogmas religiosos que lhes parecem francamente insensatos.
Rejeitada a versão religiosa da sacralização da sexualidade, depositemos ainda a esperança na sua congénere ateia, que se formula através de qualquer coisa como isto: "A sexualidade é sagrada porque expressa o que há de mais íntimo no ser humano: os afectos, o amor, a paixão. Os afectos não se podem transacionar porque não são mercadorias. O amor não se pode alugar porque seria destruído no processo de aluguer". Há, é claro, um fundo de verdade neste argumento: o amor, uma vez que se trata de algo espontâneo, não é passível de ser comprado. Mas não há nenhuma essência universal da sexualidade. Cada qual fornica pelas suas razões, uns por amor, outros porque cumprem o dever conjugal, outros porque visam a procriação, outros pela simples tusa e nada mais, e, outros porque simplesmente podem tirar proveitos económicos disso e além disso ainda satisfazer a tusa de outrem (e, com um bocado de sorte, também a sua própria). Não há sexualidades morais e outras imorais, da mesmíssima forma de que não há penteados morais e imorais (a não ser, é claro, o da Margaret Thatcher).
O mundo da prostituição é muitas vezes feito de abusos, coacções, violações, desrespeitos, chulos sem escrúpulos, aproveitamento da pobreza, estigma, doença e desprezo. Mas nem um só desses males decorre da essência da prostituição, e todos, sem excepção, são alimentados pela condenação moral, ilegalização e desregulação que todos nós impomos à profissão precária mais velha do mundo. As putas somos nós.

domingo, 25 de outubro de 2009

O disco da minha vida VI

É o disco mais recente desta saga que chega agora ao seu sexto capítulo.

O disco em causa chama-se "Tanglewood Numbers", de 2005, pelos Silver Jews.
Os Jews são, na prática, uma criação de David Berman. Surgiram no início dos anos 90 quando Berman e Steven Malkmus (sim o man dos Pavement) trabalhavam como guardas num museu. Inicialmente, o mote era o lo-fi, quando ninguém fazia lo-fi. Era tudo grande, nessa altura, o som, os cabelos, a produção. O primeiro disco dos Jews foi gravado num walkman.
O que começou como uma brincadeira de Malkmus, os Pavement, projecto paralelo quando este se mudou para Nova Iorque, acabou por pegar juntos dos fãs do rock mais noise e alternativo. De tal forma que muita gente conheceu os Jews como o projecto paralelo dos Pavement (apesar de tudo ter começado exactamente ao contrário).
Malkmus ainda voltou ao Jews em alguns discos, e toda a discografia da banda é interessante. Mas a parte que mais me agarra é a segunda encarnação da banda, os últimos dois discos, dos quais "Tanglewood Numbers" é o primeiro, seguindo-se o recente "Lookout Mountain, Lookout Sea".
Depois de um longo período de desorientação, com ingredientes como depressão profunda, alcoolismo, dependência de drogas e tentativas de suicídio, 2005 viu nascer este disco, que tem como dois grandes pilares David Berman e a sua mulher Cassie, cuja voz faz o contraponto perfeito com a do dorido Berman.
Esta segunda encarnação dos Jews é claramente mais polida e menos "artística"  do que nos caóticos e livres primeiros discos. Estes dois últimos são discos bem gravados, se bem que simples, e apostam na estrutura normal de canções, com efeitos devastadores. Berman é o rocker mais letrado do mundo (foi professor de literatura e é um escritor de algum sucesso), e a mistura do som country-rock-noise com letras perfeitas, bonitas e desesperadas, faz dos Jews - e deste disco em especial - uma obra-prima.
Os Jews não são necessariamente uma banda fácil. Não começamos logo a bater o pé, não ficamos viciados na primeira audição. É uma banda que requer carinho, entrega, uma audição cuidada até estarmos devidamente infectados. É a antítese do mp3, mas curiosamente foi assim que os conheci. Cheguei lá por ouvir o grande Cigano Mágico falar neles, saquei os albuns todos da net. De todos, "Tanglewood Numbers" foi o que mais me agarrou, e continua a ser o meu preferido até hoje.
Tudo é bom, mas as letras são do melhor. O universo é americano, mas o americano de Bukowski, das lojas de conveniência, das noites perdidas, das estações de serviço e das mulheres que se vão embora.
Deste disco, deixo-vos um excerto da letra de "Punks in the beerlight", a faixa que abre o disco:

"where's the paper bag that holds the liquor?

just in case I feel the need to puke.
if we'd known what it'd take to get here.
would we have chosen to?".

Para quem estiver interessado e use o Utorrent, pode sacar o disco daqui.

sábado, 24 de outubro de 2009

MDCXII

Não faço ideia se o que está no título está certo ou quer dizer alguma coisa, mas vocês já vão perceber a ideia.

A questão é que, depois de uma semana a levar com o Saramago, as críticas à igreja, um tipo qualquer obscuro do PSD a mandar vir, o Sousa Lara ressuscitado e merdas do género, hoje ligo a SIC Notícias e está o dito Saramago a discutir a questão com um padre (que se esqueceu de desligar o telemóvel, o que até foi bom, porque não se conseguiu ouvir metade do que eles, e o inefável Mário Crespo, estavam a dizer).

A minha questão é simples: mas estamos na puta da Idade Média, ou quê? Deus é bom ou Deus é mau?! Isso é tipo ser do Sporting ou do Benfica, cada um sabe de si e cada um é livre de dizer o que bem entende.

Alguém quer saber se a Bílbia é boa ou má? Se o comuna faltou ao respeito aos papa-hóstias?

Who the fuck cares?!

Mas não há nada de mais interessante para fazer do que discutir esta suprema irrelevância? Não há pirafos para mandar ou copos para beber?

Ou estaremos de facto tão emprenhados pelos ouvidos por este delírio mediático que já começamos a levar isto a sério?

Bebam uns copos, fumem umas ganzas, curtam um som e deixem-se de palhaçadas.

É apenas uma sugestão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Troca de Galhardetes



Simpatizo muito com este homem.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Não sei o que é que se passa, devo estar com o sectarismo avariado

Hoje deu-me para isto: vou dedicar toda esta posta a dizer bem do PCP.

1- O PCP foi o único partido que manteve uma oposição organizada e sistemática contra o estado novo. São heróis todos os comunistas que, em nome da liberdade, resistiram contra a ditadura, enfrentando a clandestinidade, a prisão, a tortura, o exílio e a morte. O PCP é o partido de centenas de homens com a fibra de Cunhal.

2- O PCP sempre foi coerente: sempre lutou do lado dos mais fracos (pobres, desempregados, trabalhadores precários, etc.) contra os mais fortes que os exploravam (grandes interesses económicos).

3- O PCP sempre teve grandes parlamentares e excelentes quadros-técnicos.

4- O PCP não é só um partido parlamentar. É sobretudo um partido com uma grande implantação social junto dos trabalhadores e das estruturas que os representam.

5- O PCP tem uma grande implantação autárquica na Grande Lisboa e no Alentejo, sendo quase consensual o trabalho de excelência que têm desenvolvido.

6- O PCP é o único partido capaz de organizar uma Festa com a dimensão e carisma da Festa do Avante.

7- A quem oprime sempre lhe interessou a ignorância. E o PCP sempre lhe respondeu com emancipação cultural.

8- Ao contrário de outros partidos marxistas-leninistas, o PCP nunca foi anticlerical, tendo sempre tentando estabelecer pontes com católicos progressistas.

9- Apesar das suas raízes consevadoras, o PCP tem-se tornado cada vez mais liberal em termos de costumes.

Pronto, já não há nada a fazer. A ordem mental para carregar no botão "publicar mensagem" já foi emitida.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Strange Days

Agora que foi finalmente anunciado que os U2 farão um segundo concerto em Portugal em Outubro de 2010 (!), apetece-me dizer que preferia sofrer uma colonoscopia a passar horas numa fila para comprar bilhetes para os U2 daqui a um ano.

Pensando bem, preferia ter uma valente caganeira a ir ver os U2.

O verdadeiro Spam

Circula na net mail com transcrição integral de três livros de Miguel Sousa Tavares

Dizem que é por vingança.

Fonix, gente rancorosa...

I don't wanna live in a world like this

Mulher do futuro será mais gorda e mais baixa

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O carapau de Ipanema

Um homem nasce, cresce, copula e morre, numa existência passageira, patética e absurda como a de qualquer outro animal. Tom Waits tem toda a razão quando disse um dia que os homens não são outra coisa senão macacos com dinheiro e armas. Sim, é verdade, a história da humanidade não é mais do que a sucessão de lutas impiedosas, cruéis e sem qualquer sentido entre símios oriundos de clãs rivais. E quem pensar que o admirável mundo gadjet do século XXI, com os seus inúteis brinquedos de plama e fibra óptica que nos impingem e nos enrabam todos os dias através da mega-televisão LCD-HD que temos lá em casa de não sei quantas polegadas compradas a não sei quantas prestações, alteram um milímetro que seja a nossa primitiva e animalesca natureza, basta pensarmos nos corpos que todos os dias são desmembrados e esventrados e estropiados no Afeganistão e no Iraque com o contributo do nosso bondoso e fraterno Nobel da Paz e com a cumplicidade cobarde e conveniente de todos nós, para percebemos que continuamos a ser a mesma besta iníqua e grosseira que sempre fomos e sempre seremos.
E, contudo, a história da humanidade não é nada disso. Mais do que a história da nossa bestialidade, a nossa história é sobretudo a história das sucessivas tentativas de esconder a nossa bestialidade. A história da arte escondendo a nossa boçal mortalidade. A história do amor escondendo a permanente pressão do sémen para se descarregar.
Em 1962, um macho de seu nome Jobim e outro de seu nome Vinicius, bebiam calmamente uma cerveja gelada na esplanada do Bar Veloso, quando uma fêmea atraente, bamboleando as suas ancas pelas ruas quentes de Ipanema, provocou neles uma descarga intensa de testosterona. Estes homens podiam ter sido honestos com a boçalidade intrínseca da sua natureza e vociferarem qualquer coisa como "é carapau, lambia-te toda, minha mula mamalhuda". No entanto, estes homens cultos e sofisticados, que se deliciavam a beber gin tónico e ouvir Cool Jazz nas varandas dos seus apartamentos em Manhatan, optaram pela hipocrisia da arte e do amor e disseram um para o outro: olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina, que vem e que passa, num doce balanço, a caminho do mar ...

domingo, 18 de outubro de 2009

Vodka Orange

Agora que passou a febre das eleições, o PSD abandonou a guerra fria e entrega-se alegremente à guerra civil. Eu acho bem. Não sou como aqueles hipócritas que dizem que querem "um Sporting forte, para termos um futebol competitivo". Não,  a verdade é que, como benfiquista, quero ver Sporting e Porto (especialmente este) no pior estado possível, e enquanto cidadão de esquerda o mesmo se aplica ao PSD.
Uns defendem que o PSD deve chumbar o orçamento. Outros que se deve abster. Ninguém se lembra de dizer é que ainda não há orçamento ou sequer projecto de orçamento, portanto é um bocado prematuro falar nisso.
Depois, Manuela Ferreira Leite cada vez se parece mais com aquelas tias velhas, porque ninguém a quer lá por casa mas faz questão de não se ir embora. Depois aparece o apoiante do Marcelo; depois o do Passos Coelho; depois o próprio Passos Coelho, qual emplastro da política portuguesa, qual adolescente masturbatório viciado em porno; qual...enfim, vocês percebem a ideia.

No PSD discute-se tudo. Mas não se discute nada do que é mais importante. Isto é, a ideologia. Aquela pequena questão de "o que raio queremos que o país venha a ser".
Discute-se estilo: se deve ser mais ou menos agressivo, mais ou menos mediático, mais ou menos jovem.
Não se discute se deve ser mais liberal, mais conservador, ter mais consolidação ou estímulo económico, etc.

O PSD volta a mostrar, para quem tivesse dúvidas (mas ainda há alguém?!), que não tem ideologia, pura e simplesmente, pelo que não tem grande coisa a discutir neste campo. O que interessa é o poder, porque sem ele o PSD é um saco de gatos que não serve para nada a não ser para fazer ruído.

sábado, 17 de outubro de 2009

Coisas lindas

Mantendo a senda do futebol, podem dar asas à nostalgia, aqui.

Estão lá todos os equipamentos, desde o Nápoles de Maradona ao Benfica de Eusébio.

Destaco a linda camisola da Argentina, o Torino dos anos 40, o meu Benfica com a Shell estampada.

Quem se atreve a julgar Deus?

Let's face it, Maradona é uma grande merda de treinador. A equipa não joga a ponta de um corno, os jogos são miseráveis, etc, etc. Eu sei, e isto é triste para mim, que levo a selecção argentina no coração, e é assim desde que vi, em campo, um pequeno génio que me mostrou que futebol pode ser mais do que gajos a tentar meter a bola numa baliza.
Com esta selecção, toda a magia está no banco. E essa magia tem três nomes: Diego Armando Maradona. Não interessa o que se passa dentro do campo, de facto pouco se passa dentro do campo. Não me interessa. Ver Diego, no banco, vibrando, gritando, reclamando, aplaudindo, vivendo o futebol como Deus quis que ele vivesse, é tudo o que preciso.

Depois das declarações de Maradona quando conseguiu o apuramento, dizendo aos jornalistas que "só vos tenho a dizer que continuem a chupá-la bem", o mundo civilizado ficou chocado. Os jornalistas argentinos crucificaram-no - o que é compreensível - , a Fifa abriu um inquérito, e todo o pensamento politicamente correcto do mundo se apressou a bater no senhor.
É claro que Diego fez pior a seguir, já que veio pedir desculpas, mas com um twist: pediu desculpas apenas às mães e às mulheres de todo, pela linguagem que utilizou.
Diego é assim. Ele sabe que o mundo da bola é um mundo de homens, de sangue, suor e lágrimas. Feito de dureza, lesões, desilusões, injecções, fé, dor e, de vez em quando, de glória. Diego sabe que, ao pedir desculpa às mães e às mulheres, está realmente a foder com a cabeça dos bem pensantes idiotas que acham que na bola há igualdade. Não há. Mas há respeito, mesmo que seja o respeito paternalista pelas mulheres.
Eu criticaria qualquer treinador que dissesse o que ele disse. Acontece que mais ninguém é Diego, mais ninguém é o mítico 10 estampado na alma. Se há alguém que o pode dizer, que pode dizer tudo o que quiser no mundo místico da bola, é Diego. 

Como diria Diego, "continuem a chupá-la bem".

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Depois do maior pão com chouriço do mundo...

...Portugal choca a Humanidade com outro record.

Neste caso o autor foi João de Deus Pinheiro. O antigo ministro de qualquer coisa já era detentor de um record, o de deputado europeu que menos fez, mas agora fez melhor.
O senhor, que foi cabeça de lista do PSD em Braga, tomou posse ontem, juntamente com todos os outros deputados. Mas ele, ao contrário do resto daquela carneirada desgraçada, saiu do parlamento meia hora depois, acabadinho de renunciar ao cargo. Qual Fernando Santos despedido na primeira jornada após empatar com o Leixões, Deus Pinheiro foi deputado menos de meia hora.
Dizem-me que o senhor alegou motivos de saúde para a renúncia, fenómeno que estranhamente não o afectou aquando da campanha. Agora sai, o PSD ficou com o lugarzito garantido para lá meter um boy, e Deus Pinheiro lá vai à sua vidinha.
Pode agora dedicar-se à sua verdadeira paixão, algo que ele substituiu por algo de verdadeiramente útil desde, mais ou menos, 1962: o golfe, ou como dizem os ricos como ele, o "gólfe".
Como se vê, pela imagem desta belíssima edição da revista "Golf Executivo", o senhor defende que, e passo a citar, "O golf é terapia para vidas agitadas".

Assim é, de facto. Bom descanso, caro deputado. Perdão, ex-deputado.
Para quem é meio voto basta
O jackpot de uma democracia seria o poder ser exercido directamente por toda a gente. No entanto, a democracia directa enfrenta dois grandes obstáculos filosóficos: (1) uma reunião de conselho de ministros com dez milhões de pessoas na mesma sala acabaria demasiado tarde, e um gajo depois já não chegaria a casa a tempo de ver a bola; (2) muitos portugueses que são excelentes nos seus ofícios (seja na carpintaria, no banditismo, na advocacia ou na subsídio-dependência), desperdiçariam o seu talento natural, tornando-se políticos medíocres.
Para superar estas dificuldades, alguém extremamente esperto e preguiçoso inventou uma versão simplex da democracia, a que chamou democracia indirecta ou representativa. A ideia é tão simples como engenhosa: (a) o povo continua a ser soberano mas, como isso dá muito trabalho, delegam-se as chatices em políticos que os representam; (b) os representantes têm a maçada de elaborar programas políticos, os representados votam no programa que gostam mais ou que detestam menos, e os representantes comprometem-se a cumprir o programa prometido, para os representados não se sentirem enganados.
Ora toda esta interessante geringonça política funcionaria na perfeição se não houvesse constantes avarias neste último mecanismo: os representantes enganam frequentemente os representados. Os exemplos são muitos pelo que citarei apenas quatro: (1) o Guterres prometeu que não subiria as propinas e subiu-as; (2) a Ferreira Leite prometeu uma trinta linhas de TGV quando estava no governo e fez do combate ao TGV a sua principal bandeira quando passou para a oposição; (3) o PS prometeu que iria malhar no reaccionário Código de Trabalho do Bagão Félix e depois aprovou um Código de Trabalho ainda mais reaccionário; (4) o Santana Lopes prometeu sempre que não era parvo e ao longo da sua longa carreira política não cumpriu uma única vez o seu compromisso.
Qual é então a causa desta avaria técnica das democracias modernas e como consertá-la? Julgo que a origem é a seguinte: "os incentivos dos representantes para mentir aos representados são maiores do que os incentivos para falar verdade", pelo que a reparação consiste em "calibrar os incentivos". O meu grilo falante diz que não, que os representantes já têm os incentivos adequados para não mentirem: o medo dos representados se sentirem mais tarde enganados e não votarem neles uma segunda vez. Mas o meu grilo nunca percebeu nada de política, pelo que lhe escapou por completo os seguintes contra-argumentos: (a) para os representantes, mesmo uma só vitória não repetida já é suficientemente recompensador, desde que se imprima um ritmo rápido no processo de clientelismo, tráfico de influências e saqueamento do estado; (b) com doses massivas de propaganda, é possível retocar as mentiras e fazê-las passar por verdades; (c) os representantes sabem que a maior parte dos representados acham que os representantes são igualmente mentirosos, pelo que a mentira perde qualquer valor discriminativo.
Como criar então nos representantes incentivos mais alinhados com os interesses dos representados? Na minha opinião, seria através da seguinte e estrambólica engenharia política: (1) dever-se-ia criar uma entidade independente com a função de avaliar os representantes quanto à percentagem de promessas que foram cumpridas; (2) os votos teriam uma ponderação em função da respectiva classificação. Desta forma, um voto num partido que nas legilslaturas anteriores só tivesse cumprido metade das suas promessas, só valeria meio voto. Para quem é, meio voto basta. E o medo de uma desvalorização abrupta da cotação de um voto no mercado eleitoral seria o poderoso incentivo que falta ao nosso sistema político.
Se a minha estapafúrdia alternativa não resultar, não faz mal. Há sempre a possibilidade de suspender a democracia por alguns semestres.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os sociais democratas também se abatem

Caros camaradas do tasco, gente sadia de esquerda a quem muito saudavelmente o capitalismo vos mete nojo, ajudem-me. Fiz trinta e dois anos há pouco tempo e pareço estar a desenvolver todos os sintomas de me estar a transformar num social democrata.

Vejamos então quais são os meus terríveis sintomas.

1. Deixei de defender revoluções. Considero que em democracia a única via legítima para caminharmos para uma sociedade mais justa é a via política não violenta, nomeadamente através do voto. Uma revolução só é legítima quando as vias políticas não violentas são proibidas, como sucede numa ditadura. E mesmo assim, a violência de uma revolução só é legítima se servir de rápido estádio de transição para um regime em que a violência não possa ser utilizada novamente como método de confronto político. Esse regime tem um nome, chama-se democracia. Desta forma, condeno e desprezo tudo o que sejam acções violentas de extrema esquerda, desde o partir montras em nome da luta contra a globalização capitalista, até destruir campos de milho transgénico em nome dos alegados perigos dos produtos geneticamente modificados. Detesto a violência. A violência só é legítima como legítima defesa contra a violência, ou seja, quando não é possível defendermo-nos da violência por outra forma que não seja uma defesa violenta (fui claro, não fui?).

2. Deixei de ter uma concepção optimista sobre a natureza humana. Se bem que admita que o ser humano tenha alguma propensão para a cooperação e para o altruísmo, o ser humano possui igualmente uma enraizada tendência para a competição e para o egoísmo. Esse lado perverso da natureza humana deve ser sempre tomado em conta em qualquer sistema político. Ou seja, em sociedade e em economia, os incentivos importam. Deve é haver o cuidado para os incentivos individuais estarem alinhados com o bem público. O que, é claro, sabemos que muitas vezes não acontece.

3. Deixei de defender economias tendencialmente estatizadas. A perda de eficiência é demasiado grande, e o poder totalitário conferido ao estado sobre os cidadãos é demasiado grande. Também me oponho, evidentemente, a um mercado livre desregulado. A liberdade extrema do mercado é um paradoxo porque destrói a própria liberdade: a liberdade dos pobres, dos desempregados, dos excluídos, daqueles que não têm nada a não ser vender a sua força de trabalho. Por isso, defendo uma economia mista, em que: (a) a maior parte da economia seja de mercado; (b) esse mercado deve ser fortemente regulado para garantir a concorrência e minimizar os riscos sistémicos para o bem público; (c) que haja uma forte redistribuição da riqueza através de impostos regressivos, em que os mais ricos pagam mais impostos para redistribuir sobre os mais pobres; (d) que haja um estado social que garanta serviços públicos de saúde e educação universais e gratuitos, e uma segurança social pública baseada na solidariedade intergeracional e interclassista; (e) que os monopólios naturais e os sectores estratégicos como o petróleo, a água e electricidade sejam monopólios do estado e não monopólios privados; (f) que haja um banco público forte que, através da redução das taxas de juro, obrigue a concorrência privada a acompanhar esta redução, especialmente em tempos de crise económica.

4. A democracia parlamentar não tem que ser, necessariamente, um braço armado da burguesia. Se forem criados os incentivos correctos (que passam, na minha opinião, pelo financiamento dos partidos ser exclusivamente público, para acabar com a promiscuidade entre financiamentos privados e contrapartidas políticas a esses interesses privados), a assembleia da república (e as eleições que a legitimam) é o palco por excelência da construção e avanço da democracia. Se a esquerda perde no parlamento, tem que aceitar humildemente a decisão soberana do povo. "É a vida".

5. Desconfio das massas e das acções de rua. Partilho de uma ideia oriunda da direita de que o mais importante para um correcto funcionamento de uma sociedade é o correcto funcionamento das suas instituições. Se forem criados os incentivos certos para que funcionem bem a assembleia da república, o governo, a presidência da república, os tribunais, as empresas, os sindicatos, as comissões de trabalhadores, etc., etc., a sociedade tenderá a funcionar bem. Confiar na psicologia espontânea das massas é um grave erro. As massas não costumam ser criaturas muito racionais e ponderadas.

Pois é, caros companheiros atónitos, como veêm o meu prognóstico clínico é extremamente reservado. Os sintomas já são de tal forma graves que já me situo na extrema direita do bloco de esquerda. Por isso, é que vos peço, encarecidamente, a vocês que ainda são gente sã e lúcida que defende a ditadura do proletariado e o extermínio benigno da burguesia exploradora, para me abaterem agora, a sangue frio, como quem abate um cavalo doente, última e derradeira oportunidade para evitar a continuação do meu deslocamento político para a direita, primeiro para a extrema esquerda do PS, depois para o centro, depois para a ala direita do PS, para por fim acabar no PSD em jantares no Eleven, em companhia do Pacheco Pereira e da Zita Seabra. Abatam-me já, camaradas, antes de ser tarde de mais.