segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Eu sou o Armando Vara dos Cds
Quando era adolescente, de vez em quando os meus pais iam de férias para o estrangeiro, e eu e o meu irmão ficavamos uma semana sozinhos em casa. Liberdade. O problema é que sempre fomos educados como atrasados mentais, pelo que não sabíamos cozinhar um ovo cozido, quanto mais um ovo estrelado (ainda hoje, com trinta e dois anos, devo ser o único adulto residente no município de Lisboa, e sem nenhuma deficiência mental, a não saber partir a merda de um ovo). Restavam-nos apenas duas estratégias para sobrevivermos durante aqueles sete longos dias. Primeira estratégia de sobrevivência: devorarmos uma panela gigante cheia de panados de peru deliciosos (com imenso limão) feitos pela minha mãe (ainda hoje, com trinta e dois anos, continuo a achar que a minha mãe faz os panados de peru mais deliciosos da área metropolitana de Lisboa). O problema é que, invariavelmente, ao segundo dia já estava a panela totalmente vazia, apenas com os destroços tristonhos de pão ralado queimado a boiar no seu fundo. Segunda estratégia de sobrevivência: a minha mãe deixava-nos guito para irmos comer fora. Nessa altura, havia uma hamburgaria no Palmeiras chamada Frog, com uns hamburgueres porreiros (ainda hoje, com trinta e dois anos, devo ser o bloquista residente em Portugal Continental que mais gosta de fast food americana), que reunia todas as qualidades para ser o meu manjedouro habitual, se não fosse o facto de já nessa altura ter uma compulsão descontrolada pelo consumo de CDs. Ora, assim como não se pode deixar uma batelada de dinheiro a um junkie esperando que o mesmo faça dele a sua utilização devida, parece-me igualmente evidente ser uma completa irresponsabilidade confiar dinheiro a um dependente de Cds (ainda hoje, com trinta e dois anos, devo ser a pessoa da península ibérica com um salário de mil euros que mais estoura irresponsavelmente o seu mísero salário em objectos inúteis como Cds). Foi isso que aconteceu. Grande parte do dinheiro foi estourado em Cds (nessa altura a minha panca - muito partilhada com o Bastard - era a rocalhada do final dos anos sessenta, Doors, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Led Zeppelin, Deep Purple e afins). E o resultado nutricional deste meu problema de adicção foi desastroso: quase uma semana a carcaças com manteiga. Pior ainda foi o resultado moral, já que numa folhinha de papel todos os meus gastos furtivos em Cds eram cuidadosmente transformados em despesas honestas em menus de hamburgueres, batatas fritas e molhos delicosos da hamburgaria Frog, numa engenharia contabilística de fazer inveja aos nossos mais respeitados CEOs. Quem nunca pecou que atire a primeira escuta telefónica ilegal.
Os primeiros putos de Manchester
Ainda antes dos Joy Division, dos Fall, dos Chameleons, dos Smiths, dos New Order, dos Stone Roses e dos Happy Mondays, já os Buzzcocks tinham mostrado ao mundo que a decadente cidade fabril de Manchester podia ser feia, cinzenta e opressiva mas era tudo menos musicalmente irrelevante.
O perigoso social democrata, Michael Moore
Fui ver o último Michael Moore: "Capitalismo, uma história de amor". Apesar de mais uma vez vir ao de cima a sua tendência para o moralismo e o sentimentalismo, gostei do filme: pelo seu sentido de humor, pela inteligência das montagens, pela economia de meios e pela denúncia. Quando todos os dias somos bombardeados pelo discurso liberal dominante, senti o filme (e a sua visão alternativa) como uma lufada de ar fresco. Contudo, o que é extremamente curioso no filme, é a luz que nos dá sobre o sistema político americano. Descobrimos que o perigoso Michael Moore, que provocou uma reacção de tal forma violenta pela parte dos poderes instituídos que se vê obrigado a estar permanentemente escoltado por 4 guarda-costas, não é afinal nenhum esquerdista subversivo, marxista e radical, mas apenas um americano de origem working class, católico, bem intencionado e com tendências sociais-democratas. O sistema político americano está de tal forma deslocado para a direita que nem sequer a social democracia existe, pelo que alguém que tenha um discurso moderado de reformar, regular, democratizar e humanizar o capitalismo (como tem o Michael Moore), é visto pela opinião pública americana como um perigosíssimo comunista a abater. Que o fenómeno Obama não nos iluda: quando nem sequer a social democracia é admitida no espaço político americano, não há qualquer esperança que o império vá algum dia virar verdadeiramente à esquerda.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
O desenvolvimento do preconceito musical
Tudo me leva a crer que o preconceito musical sofre ao longo da vida várias mutações. Quando somos muito putos, manifestamos uma abertura quase total em relação a todas as formas de música, não estando ainda contaminados por quaisquer preconceitos. Esta liberdade de espírito total tem um inconveniente: a total ausência de qualquer filtro diferenciador. Assim, se eu puser a tocar um disco dos Pavement para os meus filhos (de 7 e 3 anos, respectivamente), não lhes causa qualquer estranheza este género mais independente e lo-fi, e são capazes até de cantarolar a melodia enquanto a ouvem entusiamados. No entanto, se eu a seguir puser André Sardet, eles farão exactamente a mesma coisa.
A partir de uma determinada idade, começamos a definir os nossos gostos musicais e a ganhar preconceitos. Nesta fase, o que ganhamos em filtro diferenciador, perdemos em abertura de espírito em relação a formas musicais que não se encaixam nos nossos critérios de bom gosto. Lembro-me que passei uma fase na minha adolescência bastante fundamentalista em que quase que me recusava a ouvir música que eu considerasse que não era suficientemente underground (sendo que na altura os meus padrões indie eram bandas como os Sonic Youth, os Mão Morta, os Pop Dell'Arte, os Joy Divison e os Jesus & Mary Chain).
Depois de nós termos definidos a nossa identidade musical (daquela forma ridiculamente fundamentalista), vamos então amadurecendo e desconstruindo os nossos preconceitos. Atingimos, finalmente, um equilíbrio entre filtro e abertura musical. Foi assim que eu descobri que uma data de coisas que na minha adolescência eu achava horrivelmente comercial e kitsch (como Stevie Wonder, Marvin Gaye, Prince, Duran Duran, António Variações, etc.), afinal eram muitas vezes geniais: o "Innervisons", do Stevie Wonder (a sua obra prima), o "What's going on" do Marvin Gaye, o "Musicology" do Prince, o "Rio" dos Duran Duran, etc. etc.
Em baixo, deixo-vos então um single do Stevie Wonder com um delicioso groove, que me faria vomitar por todos os orifícios do meu corpo quando eu tinha dezassete anos.
A partir de uma determinada idade, começamos a definir os nossos gostos musicais e a ganhar preconceitos. Nesta fase, o que ganhamos em filtro diferenciador, perdemos em abertura de espírito em relação a formas musicais que não se encaixam nos nossos critérios de bom gosto. Lembro-me que passei uma fase na minha adolescência bastante fundamentalista em que quase que me recusava a ouvir música que eu considerasse que não era suficientemente underground (sendo que na altura os meus padrões indie eram bandas como os Sonic Youth, os Mão Morta, os Pop Dell'Arte, os Joy Divison e os Jesus & Mary Chain).
Depois de nós termos definidos a nossa identidade musical (daquela forma ridiculamente fundamentalista), vamos então amadurecendo e desconstruindo os nossos preconceitos. Atingimos, finalmente, um equilíbrio entre filtro e abertura musical. Foi assim que eu descobri que uma data de coisas que na minha adolescência eu achava horrivelmente comercial e kitsch (como Stevie Wonder, Marvin Gaye, Prince, Duran Duran, António Variações, etc.), afinal eram muitas vezes geniais: o "Innervisons", do Stevie Wonder (a sua obra prima), o "What's going on" do Marvin Gaye, o "Musicology" do Prince, o "Rio" dos Duran Duran, etc. etc.
Em baixo, deixo-vos então um single do Stevie Wonder com um delicioso groove, que me faria vomitar por todos os orifícios do meu corpo quando eu tinha dezassete anos.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Libertários de Direita, Fuck Off
A malta libertária de direita tem a mania que a sua posição é coerente, na medida em que defende sempre a liberdade dos indivíduos contra a opressão colectiva (Estado), seja na esfera económica (mercado livre), seja na esfera dos costumes (costumes livres). Estão errados. As duas esferas pertencem a domínios diferentes (domínio moral vs domínio pessoal), pelo que a questão da liberdade coloca-se de maneira diferente. A esfera económica tem uma natureza moral, na medida em que a liberdade de um agente económico condiciona a liberdade de outro agente económico. Um exemplo: a liberdade absoluta dos grandes grupos económicos (não sujeita a qualquer regulação do Estado) gera enormes assimetrias de riqueza, obrigando os mais pobres a alugar o seu único recurso (a sua força de trabalho) pelo preço imposto por esses grupos económicos (por mais baixo que ele seja), não tendo sequer liberdade para negociar esse preço, tal a assimetria de poder existente entre ambos. Sendo assim, e ao contrário do que os libertários de direita defendem, faz sentido impor alguns limites à liberdade económica de alguns (salário mínimo, redistribuição da riqueza através de impostos progressivos, etc.) de forma a preservar pelo menos patamares mínimos de liberdade económica para todos. Pelo contrário, a esfera dos costumes já não é do domínio moral mas sim do domínio pessoal, na medida em que a liberdade dos costumes de uns não condiciona a liberdade dos costumes dos outros. Exemplo: eu devo ter a total liberdade de ser ateu e de expressar o meu ateísmo, na medida em que tal escolha em nada limita a liberdade dos religiosos continuarem a acreditar nas suas crenças e a professarem a sua religião. Desta forma, neste domínio pessoal (em que a liberdade dos outros nunca é ameaçada), não deve haver qualquer intromissão do Estado na liberdade de cada um. Resumindo e concluindo: Libertários de Direita, Fuck Off.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Sobre o 25 de Novembro
Duas dúvidas singelas:
1 – Se é uma data assim tão importante, não deveríamos estar todos hoje a gozar mais um feriadozeco?
2 – Por que raio é que alguns amantes da liberdade nada se importunaram com a ditadura e muito festejaram o 25 de Novembro?
1 – Se é uma data assim tão importante, não deveríamos estar todos hoje a gozar mais um feriadozeco?
2 – Por que raio é que alguns amantes da liberdade nada se importunaram com a ditadura e muito festejaram o 25 de Novembro?
Música
Nesses tempos, a música é o que te distingue (para uns poucos é o skate ou o futebol, para mim era também a literatura). É aquilo que te faz perceber de que lado estás, quem está contigo. É aquilo que, de cada coisa que descobres, te leva a descobrir mais um pouco de ti próprio, daquilo que poderás ser, ao que estás disposto, de tudo o que podes vir a conhecer e experimentar, um dia.
Comigo foram os Xutos, os Doors, Led Zeppelin. Mão Morta, Censurados, Jorge Palma. Faith no More, Alice in Chains, Pearl Jam e Nirvana. Os Doors levaram-me ao Jack Kerouac, que me levou aos beats, que me levou a toda a fabulosa literatura americana do século XX. E em todos esses momentos, enquanto caminhava para a escola sonhando com o dia em que teria um walkman, ia-se desenhando na minha cabeça uma paisagem mental diferente da de todos os outros. A banda sonora da minha vida acompanhava-me a todas as horas, e mudava enquanto eu mudava, crescia e transformava-se, no meio de todos os medos e todas as incertezas e todos os traumas.E é por isso que desprezo, moral e intelectualmente, os desgraçados que têm os U2 como a sua banda preferida. Esses eram os tipos que, nessa altura, não tinham nenhuma paisagem mental que os distinguisse. Eram a verdadeira carneirada, e é o que continuam a ser hoje, atropelando-se em frente às câmaras de televisão enquanto vomitam expressões como "eles dão sempre um grande espectáculo".
Estou de férias esta semana, e os meus dias têm sido preenchidos de televisão desligada, ao som de jazz, tangos, boleros, grunge e punk, krautrock e ópera.
Se há algo por que posso estar grato, é por ter amor à música e à literatura. E porque não teria sobrevivido ao liceu se assim não fosse.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Suburbanos Hardcore de Todo o Mundo, Uni-vos
Desculpem-me a suburbanidade da minha posta, mas venho anunciar-vos que no próximo dia 11 de Dezembro no Cine-Teatro de Corroios poderão assistir a um concerto de Jello Biafra (vocalista dos extintos Dead Kennedys, a melhor banda de punk hardcore de sempre, a vários biliões de colhões de distância dos também muito bons, Black Flag e Bad Brains). A propósito deste pretexto, fui bisbilhotar à Wikipedia (as referências culturais de um fã de Hardcore são sempre muito sofisticadas) e descobri que os punks de extrema-direita da cena hardcore da California do início dos anos 80 levaram à letra o"Kill the poor" do primeiro álbum (em que é defendido que a pobreza deverá ser eliminada através do extermínio dos pobres), julgando que os Kennedys eram também neo-nazis, pelo que os seguiam para todo o lado. Para desfazer este embaraçoso mal entendido, o grande Biafra sentiu-se obrigado no EP seguinte (In God We Trust, inc.), a fazer o clássico "Nazi Punks Fuck Off", desta vez com uma linguagem mais adaptada à sofisticação intelectual de um punk neo-nazi.
Mostro-vos abaixo um take alternativo desta faixa, que exemplifica bem todos os atributos de uma boa canção hardcore: rápida, suja, crua e explosiva. Suburbanos hardcore de todo o mundo, uni-vos todos dia 11 em Corroios.
Mostro-vos abaixo um take alternativo desta faixa, que exemplifica bem todos os atributos de uma boa canção hardcore: rápida, suja, crua e explosiva. Suburbanos hardcore de todo o mundo, uni-vos todos dia 11 em Corroios.
Isto não é um post, é um rabisco electrónico
Acabamos de avisar o mundo que, afinal, a guita não chega, pelo que vamos pedir ao estrangeiro aí mais uns cinco mil milhões de euros, em trocos, se faz favor. O primeiro-ministro é apanhado nas escutas a trocar favores com um amigo vice-presidente de um banco. O Benfica é eliminado da Taça.
E nós estamos a discutir o quê?
Exacto: semântica.
No processo de avaliação de professores, anda a oposição a dizer que há uma suspensão do processo; já o PS insiste em que nada disso, há mas é uma paragem seguida de uma substituição.
Por outro lado, pedimos mais cinco mil milhões ao estrangeiro através de um documento chamado orçamento rectificativo. Rectificativo?! Nada disso, diz o cabeça-de-giz dos Santos. Isto é mas é um grandessíssimo de um orçamento redistributivo. E ai de quem diga o contrário, apesar do conceito agora introduzido nunca ter existido.
Será que esta gente não percebe que, enquanto estão nestas discussões estéreis, o povo que neles votou não percebe minimamente que raio andam eles a fazer? Por outro lado, será que o povo quer saber?
Mais, depois de tudo o que soube nas últimas semanas, se houvesse hoje eleições não iria tudo votar outra vez no Pinócrates?
Pois. De uma estranha maneira, tudo isto encaixa. Não merecemos mais, de facto.
E nós estamos a discutir o quê?
Exacto: semântica.
No processo de avaliação de professores, anda a oposição a dizer que há uma suspensão do processo; já o PS insiste em que nada disso, há mas é uma paragem seguida de uma substituição.
Por outro lado, pedimos mais cinco mil milhões ao estrangeiro através de um documento chamado orçamento rectificativo. Rectificativo?! Nada disso, diz o cabeça-de-giz dos Santos. Isto é mas é um grandessíssimo de um orçamento redistributivo. E ai de quem diga o contrário, apesar do conceito agora introduzido nunca ter existido.
Será que esta gente não percebe que, enquanto estão nestas discussões estéreis, o povo que neles votou não percebe minimamente que raio andam eles a fazer? Por outro lado, será que o povo quer saber?
Mais, depois de tudo o que soube nas últimas semanas, se houvesse hoje eleições não iria tudo votar outra vez no Pinócrates?
Pois. De uma estranha maneira, tudo isto encaixa. Não merecemos mais, de facto.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Qual é mão esquerda, qual é a mão direita?
Estou outra vez com o sectarismo escangalhado. Lá vou eu malhar (à Susto e Silva) no meu BE, desta vez não para elogiar o PCP (que incorre na mesma demagogia) mas, perdoem-me os mais sensíveis a declarações heréticas, para me pôr do lado do PS e do PSD. Estou a referir-me ao dilema semântico (de uma profundidade rara no mundo da política): "suspender o modelo ou não suspender, eis a questão", em que os primeiros defendem a "suspensão" e os segundos a "não suspensão". É claro que o PS e o PSD não são se devem armar em virgens ofendidas nesta matéria, porque fizeram muita merda. O PS, porque no governo anterior foi arrogante na sua imposição unilateral de um modelo de avaliação, sem ouvir os professores e sem envolvê-los no processo, comprando, pelo contrário, uma guerra estúpida, autoritária e suicida contra toda uma classe profissional, o que constitui uma lição exemplar de como não se deve fazer uma mudança organizacional. É claro também que o PSD é um partido em quem ninguém pode confiar (e não é à toa que os seus militantes não confiam sequer uns nos outros), que no seu programa eleitoral prometeu suspender o modelo e agora é a favor do contrário. Mas, como diria o Pacheco Pereira, não é essa a questão essencial, que é afinal a seguinte: o modelo de avaliação de desempenho, tal como foi implementado pelo PS, faz sentido? Na minha opinião, nos seus aspectos essenciais (pois há pormenores que precisam de ser afinados), o modelo faz todo o sentido pelas seguintes razões: (1) acaba com a vergonha da progressão automática de todos os professores (independentemente do mérito de cada um); (2) acaba com uma situação de desigualdade no universo dos funcionários públicos, já que, ao contrário do que sucedia com os professores, a maioria dos outros profissionais do sector público já era sujeita a avaliação de desempenho (SIADAP); (3) não é uma mera formalidade, mas tem um impacto efectivo na progressão na carreira, recompensando os melhores; (4) as quotas fazem sentido, porque é impossível toda a gente ser excelente: como em qualquer outra profissão, há os muito bons, os bons, os médios, os maus e os muito maus, e a ausência de quotas conduz invariavelmente à inflação artificial do desempenho de muitos, nivelando na avaliação o que não está nivelado no desempenho efectivo. Além do mais, na minha opinião, a posição do BE (e do PCP) de defender a suspensão do modelo é contraditória com os próprios interesses da esquerda, na medida em que contribui para a ineficácia do serviço público da educação (quando o peso e qualidade dos serviços públicos constituem, e bem, uma das principais bandeiras da esquerda). Com efeito, apesar da ideia de avaliação de desempenho ser de facto originária da direita liberal, julgo que a esquerda deve incorporá-la sem preconceitos ideológicos, de forma a melhorar a eficácia dos serviços públicos, e, consequentemente, melhor resistir à pressão do sector privado concorrencial, que tenta por todos os meios o seu desmantelamento progressivo. Com efeito, a avaliação de desempenho é um instrumento de gestão orientado para resultados, que permite melhorar a produtividade de uma organização. Se a esquerda continuar com o seu corporativismo mesquinho de manter a todo o custo os direitos adquiridos pelos professores (mesmo que eles sejam injustos e que produzam enormes desperdícios), continuará a contribuir generosamente para a agenda da direita: privatizar os serviços públicos com o pretexto de serem considerados pesados e ineficientes, satisfazendo assim os interesses económicos instalados na área à custa do interesse público. Porque só um serviço público de educação, universal, gratuito e eficiente, poderá quebrar o ciclo de reprodução geracional da pobreza, possibilitando a mobilidade social dos mais desfavorecidos. Qual é a mão esquerda, qual é a mão direita?
O Disco da Minha Vida VII
O Brasil deu ao mundo muita coisa. Entre muitas outras estão alguns dos melhores jogadores de futebol de sempre, grandes escritores, gajas boas e a música. E, falando de música, o Brasil é incontornável. Desde a bossa - que de formatação tão simples como é nunca cansou, um pouco como acontece com o fado - até aos autores que surgiram nos anos 60 e ainda aí andam a dar grande música (Chico, Caetano, João Gilberto, Maria Bethania, etc, etc), passando pelo rock e pelos outros sons mais modernos.E é de isto que quero falar. Gosto bastante de rock brasileiro (e aqui uso a palavra rock no sentido mais lato do termo, Brasil é mistura em tudo, também tinha de ser assim na música), sobretudo dos grandes Raimundos (mais pesado), dos desaparecidos Blitz (pop mais pastilha elástica que existe), de muita coisa dos Legião Urbana e alguma de Skank.
Mas os reis de tudo são O Rappa.Existem há bastantes anos, e conheci-os talvez há quatro ou cinco. Havia uma loja genial no Centro Comercial de Carcavelos, onde ia quase todos os domingos. Chamava-se "Império do Som", vendia cd's em segunda mão (a maior parte gamada pelos agarrados da zona) a 7,5 euros, e o tipo atrás do balcão era o Paulo, é uma das maiores personagens que alguma vez conheci. Ex-toxicopedente, amante de música e recentemente apaixonado pela literatura, ouvia de tudo. Trash metal, big bands dos anos 40, fado, punkalhada. Gostava de conversar e não se calava o tempo todo em que eu estava na loja. Ficava lá horas, a ouvir música, a conversar e a fumar, apesar de a loja ser na cave e ter o tamanho de duas pequenas cabines telefónicas. Eu olhava as caixas e, se alguma coisa me chamava a atenção, algo que não conhecia e me despertava o interesse, pedia para ouvir (só se recusava a meter reggae: "essa merda é toda igual, queres ouvir para quê?"). Depois de uma hora à procura do cd correcto, lá ficávamos a ouvir o disco. E foi lá que ouvi Piazzola, discos antigos do Dylan e o Rappa. O disco em questão era "Rappa Mundi", de 1996, como podia ser outro qualquer. Andava a ouvir muita música brasileira e conhecia O Rappa de nome. Assim que começou a bombar no estéreo, soube logo que era algo que me daria muito prazer, só não sabia que a banda me iria acompanhar a sério ao longo de muitos anos. Depois disso, saquei a discografia toda da net e a minha primeira impressão só se reforçou.
Em 2008, depois de um longo interregno e de mudanças na formação, saiu "7 Vezes", o último disco, que comprei na Fnac assim que saiu cá. Tem tudo o que vem de trás: rap, funk, hip-hop, rock, um tudo-nada de reggae, grandes melodias, grandes letras, grandes músicas. Já este ano tive o privilégio de os ver ao vivo, na minha terra-natal de Carcavelos, no meio de milhares de brasileiros esfuziantes.
Deste disco "7 Vezes", só posso dizer que roça a perfeição. Todas (mesmo todas!) as músicas são excelentes, empolgam e ficam no ouvido, mas a produção mais cuidada fez deste album mais rico, mais denso, que não se gasta com as audições. É claramente o disco que mais vezes ouvi no último ano, e ainda é ele que roda no rádio do carro. Música com tusa que não abdica da inteligência, a síntese perfeita.
Não têm muitos vídeos, mas quem quiser conhecer as músicas, pode ouvi-las aqui.
Enquanto melómano, O Rappa foi uma descoberta que mudou a minha vida. Façam o favor de escutar.
The Great Escape
Acho que, aos 31, este foi o ano em que aprendi o que é ser adulto.
E é uma bela merda.
Quando for grande quero ser pequeno.
sábado, 21 de novembro de 2009
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Quando hoje parei no semáforo da Joaquim António Aguiar apareceu-me pela janela adentro o Paulo Portas a impingir-me pensos rápidos
"A segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque cada vez que paro me surgem no vidro criaturas inverosímeis: (...) microcefálicos, macrocefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes de partidos políticos, etc." (António Lobo Antunes)
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O pato Santana Lopes
A minha filha tem como bacio um simpático pato amarelo que ela adora. Perguntei-lhe como é que se chamava o seu pequeno amigo, respondeu-me, Santana Lopes. Juro por deus (ou, como não acredito nesse gajo mau ou impotente, juro pelo meu Benfica) que nunca a instrumentalizei nesse sentido. De onde só posso concluir que a minha filha, com apenas três anos, tem de facto uma capacidade de análise política muito acima da média.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Quando se pensa que não se consegue descer mais baixo...
...o Zborten surge com um novo mergulho, de cabeça e boca aberta, para o esgoto.
Depois de um presidente chegar ao clube e dizer Paulo Bento Forever e depois despedi-lo; depois de um presidente dizer que o balneário do Zborten era só meninas a chorar quando o Paulo Bento se foi embora, violando claramente a privacidade desse espaço; depois de falhar a contratação de um treinador sem currículo à Académica; depois de contratar um treinador, Carvalhal, cujo livro conta com um prefácio emocionado de Pinto da Costa; pensar-se-ia que não seria possível ir mais abaixo.
Wrong!
Depois de um presidente chegar ao clube e dizer Paulo Bento Forever e depois despedi-lo; depois de um presidente dizer que o balneário do Zborten era só meninas a chorar quando o Paulo Bento se foi embora, violando claramente a privacidade desse espaço; depois de falhar a contratação de um treinador sem currículo à Académica; depois de contratar um treinador, Carvalhal, cujo livro conta com um prefácio emocionado de Pinto da Costa; pensar-se-ia que não seria possível ir mais abaixo.
Wrong!
Os filhos de Dylan

Quem acha que Bob Dylan não é mau mas que o seu contributo para a história da Pop é sobrevalorizado está enganado por duas razões.
Primeiro, porque Dylan foi o primeiro ícone pop da liberdade artística: depois de Dylan ter conquistado o sucesso e o reconhecimento num registo folk e político, não quis ficar prisioneiro da sua identidade, aventurando-se num novo registo eléctrico e despolitizado. Ficou célebre o concerto em que depois de uma previsível primeira parte folk só com viola e harmónica, Dylan surpreende os seus fãs esquerdistas sentem-se traídos com o som "burguês" e estridente de guitarras eléctricas distorcidas, começando a gritar "Judas" e a abandonar o concerto. Dylan sempre foi assim, avesso às modas, aos rótulos e aos fechamentos ideológicos, coerente apenas com a sua liberdade, tocando folk no hype do rock, rock no hype do folk, country no hype do rock psicadélico, esquerdista quando a esquerda era uma pequena minoria, apolítico quando a contracultura esquerdista começou a entrar na moda.
Segundo, porque Dylan foi o primeiro a trazer a literatura para a Pop, aliando a simplicidade Pop com a inteligência e sofisticação das suas letras. A influência desta atitude sobre a pop subsequente é incalculável. Em 1964, dá-se o encontro mais importante de sempre na história da Pop: Dylan encontra-se com os Beatles, põe-nos pela primeira vez a fumar charutos, convence-os a escreverem letras mais elaboradas e canções mais experimentais. A partir deste encontro, os beatles deixam de repetir a fórmula do "she loves you, ye, ye, ye", e inauguram a sua fase mais criativa e psicadélica, ainda incipiente no "Rubber Soul", mas já plenamente conseguida no genial "Revolver" e em todas as obras primas que se lhe seguiram. Depois, claro, a influência dos beatles sobre toda a pop que se lhe seguiu é avassaladora, desde o Bowie nos anos 70, aos Smiths nos anos 80, aos Blur nos anos 90, aos Strokes nos anos 2000, que dia é hoje? E cada vez que surga uma nova banda de putos de vinte anos com uma pop simples, elegante e inteligente, podem até nem sequer conhecer o "Highway 61 Revisited" ou o "Blonde on Blonde", mas são, sem o saberem, mais uns grandecíssimos filhos de Dylan.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
O direito à hipocrisia
As pessoas dizem, ah e tal, aquele fulano daquele partido é um hipócrita do caralho, o gajo é panisga dos cabelos até a braguilha e depois vai para o parlamento lutar contra os seus próprios direitos. Apesar da aparente pertinência deste tipo de acusação, julgo ser impróprio em democracia emitir este tipo de juízos. As opiniões políticas de um qualquer político devem ser sempre rebatidas com argumentos políticos (referentes à esfera pública) e nunca com argumentos pessoais (referentes à esfera privada). Até um político (que deve ser mais escrutinado do que os outros cidadãos) tem o direito alienável à sua privacidade, não devendo haver qualquer escrutínio da sua esfera privada, mesmo que seja para detectar vasos comunicantes hipócritas com o que defende na esfera pública.
Num plano pessoal, se o político panisga for meu conhecido, aí já tenho o direito de lhe dizer (num juízo pessoal) que o cabrão é um hipócrita da merda. Mas não tenho o direito de ir para um qualquer fórum público (tv, jornal, blog, etc.) dizer exactamente a mesma coisa sobre o meu conhecido. Parece esquizofrénico, mas penso que uma pessoa deve respeitar sempre a independência de ambas as esferas. Não o fazer, é um procedimento perigoso, que leva a escrutinar os esqueletos no armário que qualquer adversário político sempre tem (e nem sequer é preciso ser de natureza sexual), sacrificando nesta demanda estalinista o valor da privacidade e as mais elementares regras da decência democrática. Dizem que, durante o estado novo, quando no PCP se queria linchar um adversário político interno, acusava-se o dissidente de ter televisão em casa.
Num plano pessoal, se o político panisga for meu conhecido, aí já tenho o direito de lhe dizer (num juízo pessoal) que o cabrão é um hipócrita da merda. Mas não tenho o direito de ir para um qualquer fórum público (tv, jornal, blog, etc.) dizer exactamente a mesma coisa sobre o meu conhecido. Parece esquizofrénico, mas penso que uma pessoa deve respeitar sempre a independência de ambas as esferas. Não o fazer, é um procedimento perigoso, que leva a escrutinar os esqueletos no armário que qualquer adversário político sempre tem (e nem sequer é preciso ser de natureza sexual), sacrificando nesta demanda estalinista o valor da privacidade e as mais elementares regras da decência democrática. Dizem que, durante o estado novo, quando no PCP se queria linchar um adversário político interno, acusava-se o dissidente de ter televisão em casa.
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