quarta-feira, 18 de junho de 2008

A verdade

Nunca fui gajo de fazer promessas. A mim próprio fiz uma única, a que teria sucesso enquanto escritor antes dos 30, a idade que tenho agora. Eu tinha 22. Antes disso, o meu coração partiu-se, e desde então tenho a cabeça cheia de livros e folhas mortas. Desde lá escrevi três livros, dois deles rejeitados, à vez, por cinco editoras.
Pior que tudo, olho para o que fiz, que me saiu das veias, e penso se serei capaz de voltar a aprisionar aquela intensidade, aquela, em muitas circunstâncias, absoluta verdade comigo mesmo e que só nos livros sai.
Penso, também, que se calhar não valho a ponta dum corno, na única coisa em que defini para mim próprio, aquilo que me faria chegar lá, para além das 12 horas de trabalho por dia, que pagam a conta da mercearia. Sem saber bem como, sou realmente bom nesse trabalho que paga a mercearia, apesar de o ter sempre encarado como algo para fazer e ganhar dinheiro enquanto ninguém descobre o quão genial eu sou. E se, ironia das ironias, eu for apenas um gajo que faz bem o seu trabalho, e não tenha um pingo de talento literário? E se, finalmente, perceber que tudo aquilo que sempre procurei para mim próprio não passa de uma fraude, e que não passo, na verdade, de um funcionariozinho competente?
É nestes momentos que vem a dúvida, em relação a tudo o que fiz e a tudo o que sou.

Estou cada vez mais cínico, e não era para aí que eu queria ir.

4 comentários:

Ricardo R disse...

"Fame is but a fruit tree
so very unsound
it can never flourish
till its stalk is in the ground"

Eu sei que não conforta nada o pessimismo optimista do Nick Drake, mas não consegui impedir-me de o citar

professor x disse...

Hummmm, crise dos 40 aos 30...deixa estar que isso passa ;)

opatrao disse...

Tás a ficar um homenzinho!!
É só isso ;)

Anónimo disse...

Pah, agora que penso nisso... tás fodido.