quarta-feira, 30 de junho de 2010

Plano Inclinado


O problema danado da deriva do PS para a direita é que inclina todo o nosso sistema político para a direita.

1. Face a um PS tão liberal, o BE e o PCP perderam espaço político para defender o seu programa tradicional (mais revolucionário e igualitário), tendo que canalizar todos os seus esforços para que ao menos os últimos resquícios da esquerda mínima reformista - anteriormente protagonizada pelo PS (como a defesa do estado providência e de uma maior justiça fiscal) - não desapareçam por completo. A lógica deste deslocamento de partidos tradicionalmente revolucionários para o espaço da social democracia é simples e racional: mais vale um direito social na mão do que dois a voar.

2. Passos Coelho sintetizou há dias todo o seu programa político: "é necessário liberalizar o mercado e encolher o Estado". Margaret Thatcher não diria melhor. O PSD, para se diferenciar do seu concorrente directo, é obrigado a abandonar o seu tradicional liberalismo soft (agora adoptado pelo PS) para abraçar um liberalismo hardcore (versão Passos Coelho), defendendo um Estado mínimo (confinado apenas às funções de defesa, segurança e soberania) e um mercado máximo (com o mínimo de regulação e interferência do Estado). A mesma receita que recentemente provocou a maior crise financeira e económica desde a Grande Depressão. I've got a feeling que o nosso próximo primeiro ministro, doutor Passos Coelho, será, portanto, uma espécie de Carlos Queirós da Política.

3. O PP, para se diferenciar de um PSD tão desavergonhadamente liberal, é forçado a deslocar-se progressivamente para a extrema-direita, adoptando um discurso cada vez mais xenófobo e racista social.

4. Confesso que não estou muito informado das últimas novidades em relação ao PNR. Mas pela lógica de todo este plano inclinado iniciado pelo PS, suspeito seriamente que os seus militantes estejam neste momento na rua a fazer barricadas populares em nome da reforma agrária e da instauração de uma sociedade sem classes.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Não houve feeling que nos safasse

Saída nos oitavos de final, frente à campeã da Europa. Como disse no post anterior, justo e normal.

Em jeito de balanço da nossa participação, acho que até foi razoável. Por vários motivos, e até por muita culpa própria, não tínhamos condição para fazer muito mais do que isto.
Isto é o final de uma campanha. Let's face it: depois do apuramento que fizemos e de todas as trapalhadas, estávamos realmente à espera de mais? Eu não.

Queiroz escolheu mal os jogadores (onde está Quim e Moutinho, por exemplo, Ricardo Costa e Duda não existem, por exemplo), não foi capaz de criar um fio de jogo ou um onze-base. Há equívocos óbvios. Um deles é Pepe. Não se recupera um jogador num campeonato do mundo. Ou está recuperado antes ou não deve ir. Não mostrou por que razão se investiu tanto na sua presença, em detrimento de outros em melhor forma (tipo, que conseguiam correr).
Depois as palhaçadas de Nani, depois de Deco.
E a completa ausência de capacidade motivacional do nosso treinador, um burocrata sem carisma. A verdade é que já não estamos, de facto, entre as melhores equipas do mundo. Já lá estivemos, há uns anos, mas agora não somos melhores que uma Holanda ou um Uruguai, por exemplo. Há que ser realistas.
Em termos de balanço geral, há algumas coisas que explicam esta saída. Em quatro jogos, ganhámos apenas um. Em quatro jogos, marcámos apenas num. Foram sete, é certo, mas foi só num, contra uma Coreia do Norte de cabeça perdida. Apanhámos a Espanha porque entrámos cheios de medo da Costa do Marfim. E porque, a meio do jogo com o Brasil, ficámos contentes por não perder e não tentámos ganhar, quando a vitória estava ao nosso alcance. Queiroz, talvez traumatizado ainda pela histórica goleada frente ao Brasil há uns anos, esteve sempre mais preocupado em não deixar a equipa desequilibrar-se. Não se permitiu sonhar, e isso pagou-se. Com naturalidade.

Em termos de jogadores, alguns destaques:

Eduardo - sem dúvida alguma, o melhor jogador nacional, e isto diz muito sobre a razão pela qual fomos eliminados. Sempre desconfiei dele, mas neste momento estou rendido. Impecável, tanto dentro do campo como fora, nas declarações lúcidas e solidárias que prestou.

Coentrão - gosto muito dele, mas até a mim me surpreendeu. O melhor a seguir a Eduardo.

Meireles e Tiago -  Foram engolidos pelo meio-campo espanhol, mas até esse jogo foram enormes.

Ronaldo - na selecção pedem-lhe que faça tudo sozinho. Com toda a pressão que tem em cima, não precisa de mais. Não devia ser capitão, e mostrou-o na infelicidade das declarações após o jogo. Em termos de empenho e entrega, não tenho nada a apontar-lhe. Vítima do equívoco táctico que é a nossa equipa.

Carvalho e Bruno Alves - bom torneio da dupla, e gostei especialmente de ver o primeiro de volta à boa forma.

Hugo Almeida - torneio bastante razoável.

Deco - despede-se sem glória da selecção. Valeu a pena? Talvez. Teria sido útil contra a Espanha, talvez não tivéssemos perdido tantas bolas.

Pepe - nada a apontar em termos de atitude, mas foi um erro de casting pela situação física.

Simão - claramente em trajectória descente na sua carreira. Não se viu.

Duda e Ricardo Costa - a culpa não é deles, mas que raio andam eles a fazer com a nossa camisola vestida?

Queiroz - inevitavelmente o responsável pela nossa prestação.

Não é ter perdido. Não é voltarmos para casa. É perdermos sem tentar ganhar.

E agora....FORÇA DIEGO!!! FORÇA ARGENTINA!!!

Normal

Tudo normal.
O que vimos em campo, o que já vinha de trás, enfim, resultou neste desfecho. Normal, previsível e justo.

Começando pelo jogo, para deixar o resumo do Mundial para outro post.
Entrámos com uma equipa defensiva e uma mentalidade também defensiva. Creio que Queiroz assumiu que não tinha condições para lutar de igual para igual com a Espanha, e provavelmente teve razão. O treinador montou uma estratégia, que funcionou dentro do esperado: defender em bloco, tentar controlar o poderio da Espanha e contra-atacar, esperando também que um acidente qualquer pudesse acontecer. E até podia ter acontecido. O problema é que há graus de estratégia. Há graus de cagufa e de calculismo. Até porque toda a gente sabia, e confirmou-se, que se a Espanha marcasse primeiro o jogo acabava. No papel estava tudo certo dentro dessa estratégia, até mesmo tirar o único avançado e meter o Danny, que no treino anterior não conseguia sequer correr. Mas levámos o golo, e acabou-se.
Esse é o problema de Queiroz, tem ideias e não se sabe libertar delas. Não sabe reagir, não sabe inspirar. É um mister de régua e esquadro, e não temos equipa para, só com isso, irmos longe.

A Espanha foi melhor, claramente. Individualmente, e sobretudo como equipa, é muito melhor que nós.
Nós temos um superjogador, alguns muito bons, muitos razoáveis e alguns bastante fracos (Duda e Ricardo Costa, por exemplo). Não chegou.
O árbitro deu uma mãozinha à Espanha, mas não foi por isso que saímos.

Fomos até onde fazia sentido irmos. Com sorte podíamos ter ido mais longe, mas esta saída, nos oitavos de final e contra a Espanha, é lógica. 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O bom, o mau e o anti-herói


Por mais cínicos, brutos, individualistas e cépticos que sejam os anti-heróis, são movidos sempre por um qualquer sentido de justiça mais ou menos escondido. É desse contraste entre a sua filha da putice e o seu sentido ético (apesar de pouco ortodoxo) que nasce a sedução destes personagens. Os heróis sem vícios (como o Tintim, o Luke Skywalker e o MacGyver) são sempre terrivelmente aborrecidos.

É assim que se explica o charme do anti-herói interpretado por Clint Eastwood em “O Bom, o Mau e o Vilão”. "The man with no name" pode ser um fora-da-lei, um mercenário que persegue o tesouro escondido com a mesma ganância e falta de escrúpulos dos seus dois rivais. Mas quando assiste a um mortífero combate da guerra civil, onde morrem centenas de soldados de ambos os lados, não deixa de desabafar: "I´ve never seen so many man waste so badly”. Na sua ética privada, a violência individual entre homens livres, por menos nobres que sejam os ideais que os movem, é, ainda assim, um espaço legítimo e racional de liberdade. Mas a violência colectiva de uma guerra, em que morrem massivamente os peões assustados de um jogo que os ultrapassa, parece-lhe apenas uma brutalidade sem sentido.

O desvio em relação ao protótipo do herói tradicional é ainda mais marcado no Travis Bickle do “Taxi Driver” (que não é só o melhor filme de sempre sobre a solidão; é o melhor filme de sempre, ponto final). Travis é um personagem perturbado e paranóico (um veterano traumatizado pela Guerra do Vietname), à beira da desagregação emocional, terrivelmente solitário e desajustado socialmente. No entanto, por mais reaccionário e racista que seja o seu sentido ético (Travis repete obsessivamente que a decadente cidade de Nova Iorque precisa de ser lavada de toda a escumalha que a contamina), o que é certo é que arrisca a sua vida em nome dessa ética pouco ortodoxa: mata um chulo sem escrúpulos e salva uma miúda de doze anos das teias da prostituição.

León, o Profissional é um anti-herói tão solitário como Travis, mas, ao invés de lutar contra o crime, é ele próprio um criminoso profissional - um assassino italiano a soldo da Máfia nova-iorquina. Contudo, não é pelo facto de ser um criminoso que León não é absolutamente rigoroso no cumprimento do seu próprio código de ética privado: a sua regra profissional “no women, no kids”, a sua lealdade a Tony - o seu patrão da Máfia, e o seu amor a uma planta de que cuida obsessivamente, são, para ele, normas morais absolutas. Além do mais, todo o seu dia-a-dia é rigorosamente metódico, espartano e solitário, de forma a que nada na sua vida privada perturbe as exigências da sua vida profissional. No entanto, quando o imprevisível surge e uma rapariga de doze anos (que acaba de perder toda a família num ajuste de contas provocado por um polícia corrupto e psicopata) lhe pede socorro, León assume a responsabilidade ética de a salvar (e de a adoptar), mesmo que isso implique que a sua vida anterior totalmente ordenada e previsível desabe por completo.

Mas os mercenários, psicopatas e assassinos de que falei não passam de bailarinas de porcelana ao pé do Henry Chinaski, alter-ego do Bukowski que protagoniza grande parte da sua ficção (conheci-o graças ao Bastard, que, numa roulotte no Estádio da Luz, entre uma bifana, uma imperial e três golos do Benfica contra o Guimarães, mo recomendou). Chinaski é um tipo execrável, bruto, vadio, bêbado, machista, violento, fanfarrão, boçal e cínico. Mas não deixa também de ter também uma forte sentido ético. No seu código moral privado, o bem é sinónimo de autenticidade e de liberdade individual absoluta (no seu caso, expressa através de uma vida intransigentemente boémia e errante) e o mal, o seu contrário: falsidade e sacrifício da liberdade, em nome do conformismo social e da respeitabilidade pública.

Apesar da sua sacanice crónica, o que é verdadeiramente arrepiante no anti-herói é o seu desligamento afectivo. No “Post Office”, primeiro romance de Bukowski, é desta forma seca e completamente desprovida de qualquer ressonância emocional, que Chinaski relata a sua separação:

“A bebé começava a gatinhar, a descobrir o mundo. A Marina dormia na cama connosco, à noite. Era a Marina, a Fay, o gato e eu. O gato também dormia na cama. Olhem só para isto, pensai, tenho três bocas para alimentar. Que estranho. Sentei-me e fiquei a vê-los a dormir.
Então, por duas vezes seguidas, ao chegar a casa de manhã, de manhã cedo, encontrei a Fay a ler a secção de classificados do jornal.
- Porra, estes quartos são todos caros - disse ela.
- É verdade – respondi.
Na noite seguinte, quando ela estava a ler o jornal, perguntei-lhe:
- Vais sair de casa?
- Vou.
- Está bem. Amanhã, ajudo-te a encontrar um sítio. Vamos dar uma volta de carro.
Aceitei pagar-lhe uma determinada quantia todos os meses. Ela disse:
- Está bem.
A Fay ficou com a miúda. Eu fiquei com o gato.”
Mas, novamente, é dos contrastes que vive um anti-herói, por que, de vez em quando, as suas emoções irrompem à superfície:
“Entrei numa má onda. Embebedava-me e bebia mais do que uma doninha fedorenta no Purgatório. Até cheguei a encostar a faca à garganta, uma noite na cozinha, e depois pensei: calma, rapaz, a tua filha pode querer que a leves ao jardim zoológico. Gelados, chimpanzés, tigres, pássaros verdes e vermelhos, e o sol a bater na cabeça dela…”.

É enternecedor como é que um filho da puta como o Chinaski pode ter acessos de amor parental.

domingo, 27 de junho de 2010

Boa semana

Agora que se inicia uma semana de trabalho, deixo-vos aqui com um apropriado tema dos revolucionários Kraftwerk.

Toca a bulir, robôzinhos.

sábado, 26 de junho de 2010

Sempre a descer

Nas últimas décadas, sobretudo desde o final dos anos 80, a nossa sociedade tem vindo a sofrer um empobrecimento cultural e civilizacional, inversamente proporcional ao desenvolvimento tecnológico e mediático.
É exactamente o espaço mediático o placo desta decadência. Os Big Brother, o pimba, as revistas e os jornais cor de rosa. Os programas televisivos de infotainment. A rádio formatada numa única e redutora playlist. Os políticos que só decidem tendo como pano de fundo a aceitação mediática. Os execráveis "programas da manhã". A democratização da opinião, que tem de um lado a libertação da expressão, do outro o incentivo ao disparate.
Este é um processo inexorável e que vai deixar marcas profundas nas gerações futuras. Ninguém lê. As crianças que saem das escolas saem com notas fabulosas, e sabendo muito pouco. Não conhecem a desilusão, e não saberão como lidar com ela. Os discos ou os cds deram lugares aos comodíssimos ficheiros de mp3, devotando à música a falta de atenção e carinho que deriva inevitavelmente da abundância de oferta. Não há desporto, há playstation.
Tudo isto para falar do último bastião - a par de artes como a literatura, o teatro e a dança, por exemplo - do último bastião de informação, cultura e desenvolvimento.
A comunicação social.
Li esta semana a Visão, quase de uma ponta à outra. O tema de capa era qualquer coisa como "Por dentro da seita do sexo". Era uma reportagem extensa, mais de cinco páginas, acerca de um grupo internacional ligado à meditação, ao esoterismo, à vida alternativa, ao auto-conhecimento. Já é relativamente abusivo falar de seita, mas mais abusivo é o título de "Seita do Sexo". Nas cinco páginas, a história do sexo aparece em meia coluna da última página. E não tinha sexo, apenas um ritual de simulação, como parte de um todo complexo. Mas a frase da capa era isto: "Por dentro da seita do sexo".
Houve um jornalista que foi fazer a reportagem. Escreveu a peça, viveu com aquela gente. E colocou a questão do sexo como achou que era relevante: em meia coluna na última página. Aposto que as pessoas da "seita", que acolheram o jornalista como um deles, terão ficado boquiabertos pela forma como foram retratados, naquela capa. Foi uma traição. E não do jornalista, que é responsável apenas pelo que escreve. É o trabalho de chefes, de editores e sobretudo directores, que escolhem os títulos da capa. Este título vende, sem dúvida. Mas defrauda, sem dúvida, porque não tem correspondência com o que está lá dentro.

Acontecer isto numa das poucas publicações de referência, como a Visão, é sinal dos tempos. Isto depois de o DN ter sido completamente apimbalhado para tentar travar o declínio das vendas (e sem sucesso, aliás). Resta o Público e, em áreas cada vez mais restritas, o Expresso.
A responsabilidade é de todos, e sobretudo da comunidade jornalística. Eu, enquanto profissional da área, sinto-o na pele. Já me obrigaram a mudar um título, colocando lá um conceito errado, porque se usasse a expressão correcta "os leitores não percebem".
A comunicação social perdeu a sua missão formadora, educativa. Mais vale escrever mal e dar merda, porque "é isso que os leitores querem". E, no entanto, as vendas continuam a cair, enquanto a geração actual de iupis directores de jornais, meros franco-atiradores ao serviço do dinheiro e do poder, vai enriquecendo.

Cada vez tenho mais vergonha de pertencer a esta indústria. Que tinha tudo para ser linda, mas que está apenas bruta e estúpida.

Mais um herói caído

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Tó Trips volta a tripar

Executive Idiocy


Um executivo não comete a vulgaridade de tomar um “pequeno-almoço”. Sendo moderno e cosmopolita, implementa um “Executive Breakfast”. Foi isso que Zeinal Bava comeu recentemente de manhã a convite do Jornal de Negócios. Devo confessar que a ideia me preocupa. Os precedentes abertos são gravíssimos. Quem me garante agora a mim que o Diário Económico não vai promover um “Executive Fartting”, entrevistando António Mexia e Henrique Granadeiro enquanto ambos soltam sonoros traques? Como posso eu dormir descansado sabendo que agora o Semanário Económico pode a qualquer momento convidar Faria de Oliveira para um “Executive Shitting”?

Tenham um bom resto do dia. Se conseguirem.

Até as comemos.

Um turista competente

"Chegámos ao quarto. Fodi-a em inglês. E saímos para jantar."

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Tó Trips tem uma maneira tripada de tocar

Os fios do Boneco Sócrates


A diferença fundamental que existe entre o Sócrates e o seu boneco da Contra-informação é que enquanto o último boneco é manobrado pelo pessoal das Produções Fictícias, o primeiro boneco é manobrado pelo pessoal de Bruxelas. Neste sentido, se perguntarmos se o plano de austeridade do Sócrates é economicamente estúpido, a resposta terá que ser: claro que é mas o plano não é do Sócrates. Sócrates pode ser muito corajoso em enfrentar o lobby dos indigentes (agravando, por exemplo, os impostos sobre os bens essenciais), só que quando toca a enfrentar o directório europeu e os poderosos interesses financeiros que representa, desaparece-lhe, sabe-se lá porquê, a sua intrépida valentia. Para analisar correctamente o problema da dívida portuguesa (e a política de austeridade que se lhe seguiu), deixemos então de fingir que o boneco Sócrates se consegue mexer sozinho e concentremos toda a atenção sobre os fios europeus que o manobram, especialmente desde que Portugal aderiu à moeda única.

1- A nossa situação económica agravou-se desde 2002, tendo as taxas de emprego e de crescimento económico caído drasticamente. O euro é uma moeda demasiado forte em relação à nossa produtividade, dificultando as exportações e diminuindo a nossa competitividade.

2- Antes da adesão, o governo português possuía diversos instrumentos macroeconómicos para fomentar a estabilidade e o crescimento na nossa economia (alterações na taxa de câmbio, na taxa de juro e no controlo da quantidade de moeda em circulação) enquanto agora quase toda a política macroeconómica é definida pelo Banco Central Europeu, que não tem qualquer mandato em relação à promoção do crescimento e do emprego, tendo como única prerrogativa o controlo da inflação. Percebe-se porquê. O pleno emprego e a inflação são os dois principais inimigos dos grandes empresários. O primeiro porque fortalece o poder de reivindicação dos trabalhadores (daí a importância de ser mantida uma reserva permanente de desempregados que pressionem os salários dos trabalhadores para baixo) e o segundo porque desvaloriza o capital acumulado. Num dilema entre os interesses do capital financeiro europeu e o direito ao trabalho, a Europa liberal não pensa duas vezes.

3- Mesmo o único instrumento macroeconómico relevante ainda nas mãos do governo português (a política orçamental) é severamente condicionado pelo PEC e sua interdição de défices superiores a 3% do PIB. Tendo a crise do Subprime provocado um défice muito superior ao patamar definido pelo PEC (não pelo aumento das despesas mas sobretudo pela diminuição de receitas), Bruxelas exige agora um plano de austeridade draconiano que faça repor rapidamente o défice abaixo dos 3%. Em rigor, Sócrates não tem grande responsabilidade - é apenas a dócil marioneta. Seja como for, o governo fica impedido de recorrer a políticas expansionistas de combate à crise, promovidas por défices temporários destinados a promover o crescimento. Percebemos agora porque é que o plano de austeridade do boneco Sócrates é economicamente estúpido. Em Portugal, bem como em toda a Europa, a crise não é, como os liberais apregoam, fruto da rigidez no mercado de trabalho. Nunca como hoje o mercado europeu de trabalho foi tão flexível (que sempre foi um eufemismo hipócrita para precariedade e exploração) e nunca como hoje o desemprego foi tão massivo e o crescimento tão anémico. A crise europeia é, isso sim, resultado da falta de procura agregada. Responder a esta crise de procura com aumentos de impostos, estagnação salarial e cortes nas despesas do Estado é diminuir ainda mais a procura agregada. Tradução: o desemprego massivo vai persistir.

4- A união monetária existente não é acompanhada pela necessária coesão e entreajuda entre os diversos estados que a compõem. Com efeito, as fortes economias do Norte (nomeadamente a Alemanha) não estão dispostas a qualquer solidariedade com as frágeis economias do sul, mesmo que para isso prejudiquem a sua própria classe trabalhadora. Desta forma, a Alemanha tem promovido a competitividade das suas exportações à custa da contenção salarial (os aumentos salariais são sempre mantidos muito abaixo dos aumentos da produtividade), criando um enorme excedente comercial (exportando muito mais do que importa). No entanto, como a soma de todas as balanças comerciais do mundo têm que dar zero, para uns países terem superavit comercial, significa que outros países têm necessariamente de sofrer défices comerciais. É precisamente isso que acontece no contexto europeu: o excedente francês e alemão é feito à custa do défice português e grego. Esse défice é, por sua vez, financiado pelos bancos alemães e franceses. Quem fica a ganhar são os capitalistas alemães, que arrecadam primeiro o dinheiro que não é distribuído sobre as suas classes trabalhadoras e que arrecadam depois os juros dos empréstimos aos Estados periféricos da Europa (Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia). Quem fica a perder? Os Estados periféricos, as classes trabalhadoras de toda a Europa e, a longo prazo, a sustentabilidade do próprio projecto europeu. Tudo o resto é Contra-Informação.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

E que tal o Natal em Fevereiro?

Andam por aí duas donas de casa, há quem diga que são deputadas, que estão muito preocupadas com os feriados nacionais. Estas senhoras, deputadas independentes eleitas pelo Partido Socialista mas vindas de um tal Movimento Humanismo e Democracia, apresentaram um projecto fabuloso. Os feriados passam de 14 para 11 e passam a ser gozados junto do fim de semana. Tudo isto para incentivar a produtividade e evitar as famigeradas pontes. Encosta-se o feriado ao fim de semana, e já não há cá pontes. Ah, e não contentes com isto, estas sopeiras querem introduzir um novo feriado, a gozar a 26 de Dezembro: o Dia da Família. Ah, grande PS, nem o PP faria melhor.
O Ricardo Rodrigues, o Ricky Mãozinhas dos gravadores, já veio dizer que a ideia reuniu largo consenso no grupo parlamentar socialista. E mais, disse esta coisa extraordinária, sobre o 25 de Abril: "Se for encarado com o dia da Liberdade em Portugal, tanto faz que seja celebrado a 25 ou a 27".

E mai nada.

Este tipo mostra bem quem é, hoje em dia, o Partido "Socialista". Querem forma mais rápida para acabar com a relevância da comemoração do 25 de Abril?

Isto não passa de duas senhoras deputadas que estão a tentar mostrar serviço, mas numa proposta sem qualquer utilidade. O problema de produtividade em Portugal não está relacionado com os feriados, uma vez que há muitos países desenvolvidos com mais feriados que nós. É uma questão de gestão incompetente, falta de dinheiro, justiça ineficiente e falta de flexibilidade/preparação laboral.
Querem acabar com as pontes? É fácil. É o Estado pura e simplesmente dizer que NÃO HÁ PONTES. Quem quer fazer ponte mete um dia de férias, como eu faço. É simples. Resolve o problema e deixamos de perder tempo com delírios estéreis.

E a suprema ironia de tudo isto é vir de um partido que aplaudiu de pé a tolerância de ponto aquando da visita a Portugal de um velhadas vestido de branco.

Espero sinceramente que o bom senso impere. Mas o estado de desorientação deste governo torna tudo perigoso, e possível.

terça-feira, 22 de junho de 2010

3 jogos, 3 vitórias

E o futebol mais excitante do Mundial. Que continues a sorrir, Diego!

Uma dica de borla

O Xôr Alegre está a falar na Sic Notícias. E insiste na ideia de que Cavaco está a actuar como contra-poder ao Governo.
Em primeiro lugar, não é verdade.
Em segundo, se fosse verdade isso seria bom. Se há coisa que o menino Sócrates não precisa é ter mais um cúmplice que não lhe meta um travão de vez em quando.

Será assim tão difícil de perceber?

Todos os franceses são bichas

E quem o questionar também. Pronto. O único francês que não era bicha era o Gainsbourg, mas esse vinha de família russa.

Serve esta introdução para falar dum grande, enorme, borra-botas, ou 'enmerde botes' chamado Raymond Domenech. Este rabeta foi, até hoje, seleccionador francês. Há uns anos atrás, era treinador da equipa francesa de sub-21 quando Portugal foi lá ganhar-lhes. Na festança, os tugas partiram o balneário todo (acho que o Miguel andava por essa equipa). Este merdas, com um mau-perder bestial, veio criticar a atitude dos portugueses. Até aqui tudo bem. Mas as suas críticas tresandaram a xenofobia, impregnadas daquela fleuma franciu de quem ainda não percebeu que a França já não é, há muito, o centro do mundo. Mais, que o mundo se está olimpicamente a cagar para a França.

A selecção deste senhor acaba de ser corrida do Mundial, ondem foi um completo desastre. E para mim, que não gosto desse povo pseudo-tolerante mas sobretudo arrogante, foi um prazer vê-lo.
Mas nada me deu mais gozo que ver a tromba do Domenech, que ainda teve o desplante de recusar cumprimentar o seleccionador da África do Sul. Deixo-vos aqui duas imagens, do mesmo ser ridículo. Com bigode; sem bigode; o mesmo cara de cu.

Au revoir, madame Domenech!

Ainda não tenho o Di Maria

Faço colecções de cromos da bola desde puto, e este Mundial não foi excepção. Há quem considere isto infantil. A verdade é que, pela primeira vez, parece que a vou mesmo acabar.

Se isto não é prova de maturidade... 

O motivo pelo qual acredito que o bloco central seria a melhor coisa que nos podia acontecer

É simples. Os portugueses votam sempre nos mesmos, e sempre reactivamente. Votam contra alguém, mesmo que tenham votado nesse alguém nas eleições anteriores. Não é um exercício de cidadania, é um exercício de vingança.
Todos já percebemos o enredo do filme. O PSD não tem a certeza de ganhar se for agora a eleições, por isso vai deixando o PS cozer em banho-maria, à espera do golpe de misericórdia. Quando o momento for certo, haverá moção de censura, e Pedro Passos Coelho será, não tenhamos dúvidas, o próximo primeiro-ministro de Portugal. Depois faz merda, volta o PS, etc, etc.

Após um bloco central, este espírito vingativo dos tugas poderia fazê-los finalmente virar-se para as alternativas.

Enquanto teoria soa bem, não soa?...

A pensar em mim?

Anda a passar nas televisões uma nova campanha publicitária da Carris. Toda janota, toda modernaça e muito bem feita, como se pode ver pelo vídeo em baixo.

O meu problema é o seguinte: a Carris é não apenas do Estado, é monopolista. Por mim tudo bem, desde que funcione bem, e está longe de o fazer. É também uma empresa tecnicamente falida há mais de uma década, e uma das que que mais contribui para o fosso financeiro do sector empresarial do Estado. Se um tipo quer ir de autocarro, apanha o da Carris, assim como o eléctrico. Não é exactamente uma questão de escolha. "Ah, não, não gosto do serviço da Carris, vou apanhar o autocarro de outra companhia". Vais no que há, e pronto.
É por isso que me irrita solenemente que a Carris, que não pára de cortar rotas e horários, ande a esbanjar muitos milhares de euros a fazer esta campanha. É que a campanha nem sequer incentiva as pessoas a andarem de autocarro. Mostra só que a Carris é fixe. Alguém me explica para que raio serve isto?

Este é o exemplo do motivo pelo qual estamos como estamos. Um boy qualquer arranjou um tacho como director de marketing da Carris, e decidiu torrar guita para mostrar serviço. Bonito.

O lema da campanha é "Carris: andamos a pensar em si".

Só se for nos meus impostos...

 

De volta à tona, com nota artística

Ora viva, senhora Selecção.

Ponto prévio: não somos tão maus como fomos com os marfinenses, nem tão bons como fomos contra os norte-coreanos.
Andamos algures pelo meio, e isso depende dos dias.

Hoje ganhámos, e bem. A chave da vitória não esteve no acerto na hora de atirar à baliza. Esteve na forma como entrámos em jogo. Para ganhar.
Desde o início acelerámos o jogo, e até permitimos algumas veleidades ao adversário. Mas era assim que tinha de ser, e acredito que se o tivéssemos feito na primeira ronda teríamos ganho o jogo. E já estaríamos apurados.

Ontem entrámos com a estratégia certa, ofensiva, e jogámos como equipa. Os norte-coreanos, uma equipa aguerrida, com um meio-campo sólido, um bom avançado mas uma defesa fraquita, bateu-se de forma brava. Mas, depois do segundo golo, escangalharam-se todos, entraram em pânico e levaram uma chuva de golos em contra-ataque, fruto de total ausência de calma e de táctica. Ainda assim, tentaram, e não partiram para a porrada. Fiquei com boa impressão destes rapazes. Dignos, apesar da tareia.

Alguns destaques:

Raul Meireles: o melhor em campo. Grande garra e a aparecer na área, sempre com muito perigo.

Tiago: muito perto da qualidade de Meireles. Dois golos, uma assistência. Aquele seu futebol simples, descomplicado e geométrico é uma beleza de se ver. Quem me dera tê-lo de novo no Glorioso.

Coentrão: mais um bom jogo do rapaz. Nunca vira a cara à luta, fez uma assistência e agarrou o lugar como se fosse seu há muito. Em grande.

Ronaldo: bom jogo, colectivo e individual. Marcou o mais que merecido golo.

Ricardo Carvalho: foi o primeiro a empurrar a equipa para a frente. Na defesa, tirando uma falta desnecessária e perigosa, foi de uma limpeza impressionante.

Eduardo: não confio nele, mas pelo segundo jogo fez bem tudo o que teve de fazer. A ele a Jabulani parece não meter medo, e está claramente a dar à defesa a confiança necessária.

Hugo Almeida: outro tipo de quem não gosto muito, mas que demonstrou a sua utilidade. Pelo peso e tamanho, abriu muito espaço para os colegas, e desse trabalho todos beneficiaram.

Miguel: de longe o pior jogador da equipa. Mostrou que, a lateral direito, está atrás de Paulo Ferreira e Ruben Amorim.

E agora? Quem vai Queiroz tirar para meter os brasileiros Deco e Pepe? Eu cá não tirava ninguém...

O bolo-rei das furnas

Cavaco está de férias. O cidadão Cavaco, de Boliqueime, está nos Açores com a família. O que é chato é que levou consigo Aníbal Cavaco Silva, o presidente da República. E, estando ambos de férias, não puseram os butes no funeral do Saramago.
E isto não tem defesa, mesmo que muita gente o esteja a tentar defender.
Cavaco é Presidente da República. Tem que ir ao funeral do Saramago. E do Lobo Antunes. E do Deusébio. Ponto final.
A coisa é ainda mais grave quando sabemos que foi num governo seu que um merdas irrelevante chamado Sousa Lara retirou um livro de Saramago da lista para o Nobel. Tudo porque era e é um obscurantista iletrado que acha que cultura é papar missas e que fode sempre de luz apagada, e com a calça pelos joelhos. E Cavaco, até por isso, tinha obrigação de lá estar.
Há quem defenda que Cavaco foi coerente. Não gostava do tipo, portanto não foi. Se assim fosse, não devia sequer ter mandado a sua mísera mensagem oficial de condolências. Isso seria errado, mas coerente.
Depois vem o professor Marcelo, a catatua à procura de poiso. Sempre tão afoito a criticar e a mostrar-se melhor que os outros, e agora vem defender Cavaco. É um tiro na credibilidade deste personagem, que não passa de um comentador. Uma espécie de Gabriel Alves, portanto.
A morte de uma pessoa, e o seu funeral, não devem ser palco de quezílias ou ataques. Bem esteve o camarada Jerónimo, que criticou com sobriedade. Louçã foi o mais aguerrido, teve razão mas excedeu-se.
Manuel Alegre foi a nódoa habitual, porque desconhece a qualidade da subtileza e apareceu como gajo que está só a tentar ganhar votos com a polémica.

Voltando a Cavaco.
A principal razão para Cavaco ser um mau presidente, na minha opinião, é o facto de ser um boçal. É um tecnocrata ultrapassado, sem dimensão social ou humana para ser Presidente. Fala e age como se nunca tivesse lido um livro na vida. Como se não soubesse apreciar um quadro excepto aqueles de cães a jogar snooker e a fumar.
É por isso que é mau para nós, enquanto país, termos este retrógrado no lugar mais alto de Portugal.
Essa é que é a verdadeira tragédia, não uma ausência que só marca, de forma indelével, o ausente.

E não, nem todo o meu desprezo por Cavaco me dá qualquer vontade de votar no Pateta Alegre.






                                                                        








 "Ó Saramago, toma lá um peidinho de cozido das furnas!"

domingo, 20 de junho de 2010

Boa semana

Deixo-vos a minha música preferida de David Bowie (e provavelmente a última vez em que ele fez alguma coisa de jeito). Lembro-me de ver este estranho vídeo quando era pequeno, e ficar fixado pelo visual bizarro da coisa, especialmente pela mulher-zebra. Uma grande música, embora o som esteja um bocado roufenho.

Enjoy.

 

Um sentido adeus

Deixou-nos o Saramago.
Neste momento de luto colectivo de Portugal, e também de Espanha, Saramago não deixa de ser controverso. Todos elogiam o escritor, mesmo aqueles que nunca o leram. Outros falam do homem, os que o conheceram. Outros salientam o ser político.
Como escritor, para mim, é um monstro sagrado. Divide com Lobo Antunes o trono de maior escritor português do período que se iniciou no final dos anos 60, e que ainda dura. E, como alguém disse, foi, juntamente com Fernando Pessoa a única grande figura literária portuguesa que possuia verdadeira dimensão mundial (talvez acrescentasse o grande Eça). Lobo Antunes, tal como Camões, tem na sua arte algo de profundamente português, e mesmo de pessoal, que só lhe diz respeito a si. Saramago não. Era e é de todos, e acerca de todos. Mesmo que a qualidade dos seus livros tenha vindo a decair nos últimos anos.

Pelo homem, nunca tive grande simpatia. Parecia-me seco e convencido. Como político criticam-lhe os saneamentos que fez, no DN, após o 25 de Abril. Eu sou coerente, e defendo que a nossa revolução devia ter ido muito mais longe do que foi, e que o estado em que nos encontramos se deve aos cravos em vez de balas. Como tal, e não sabendo quem foi saneado no DN - até então um jornal muito respeitoso para o regime - prefiro não me pronunciar acerca disso.
A verdade é que o homem, o político e o escritor são inseparáveis.
Perdemos aquela que é, justamente, a maior figura literária nacional, e foi bonita a homenagem que lhe realizaram. A imagem que me fica é de um grandíssimo escritor, e de um homem que, teimosamente, insistia em ser lúcido e não se deixar levar por este estupidificante caminho de pseudo-modernização que o nosso país segue.

Num país obcecado por Ronaldos e Mourinhos, é bom que não nos esqueçamos dos verdadeiramente grandes.

E a maior homenagem que lhe podemos fazer, e que temos de fazer, é continuar a lê-lo. Que assim saibamos fazer, por muitos anos.

Medidas drásticas

O clube dos submissos já está tão mal que vão recorrer a transfusões?!...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Max Cavalera diz que é uma "mistura entre Led Zeppelin, Sonic Youth e Olodum". Who the fuck are Olodum?

Justiça ou chantagem, eis a questão


A esquerda reivindica que, por questões elementares de equidade social, recaiam menos sacrifícios sobre os que têm menos (a maioria da working class) e mais sacrifícios sobre quem tem mais (o capital e alguns quadros superiores). Nesse sentido, propõe uma série de medidas de redistribuição da riqueza e de transparência fiscal: impostos sobre as grandes fortunas, escalões do IRS mais progressivos; tributação das transferências para Offshores; taxação mais pesada sobre as mais-valias bolsistas; fim do sigilo bancário; abolição dos privilégios fiscais da banca, etc. É importante sublinhar que este programa de redistribuição é relativamente conservador. Não se fala aqui de nacionalizações, ocupações, expropriações ou qualquer outra coisa assustadora que relembre o PREC e que rime com “papões”. Não se fala igualmente de qualquer ditadura do proletariado que aniquile a burguesia e que imponha uma sociedade sem classes. Trata-se apenas e somente de propor que os mais privilegiados transfiram apenas uma ínfima parte da sua enorme riqueza para a sua comunidade (o que permitiria, por exemplo, isentar um trabalhador que ganhe um salário miserável de 500 euros de qualquer sacrifício adicional no actual pacote de austeridade). O nosso sistema político está hoje tão enviesado à direita que até uma agenda mínima como esta é considerada perigosamente subversiva.

A direita, (que mais não tem sido que o submisso braço político dos grandes grupos económicos), perdia antigamente o seu tempo a defender a suposta justeza dos ajustamentos assimétricos (alegando, por exemplo, que quem tem muito é porque é empreendedor e que quem tem pouco é porque é preguiçoso). Sendo este discurso particularmente perverso e inverosímil em tempos de crise, a direita vira-se agora para um discurso mais pragmático: “uma distribuição mais equitativa dos sacrifícios não seria viável porque iria incentivar uma fuga de capitais para o estrangeiro, agravando ainda mais a condição da própria classe trabalhadora”. Se a esquerda radica todo seu programa de igualdade no argumento da justiça, a direita radica todo o seu programa de desigualdade no argumento da chantagem. Mas não subestimemos este argumento – é poderoso, é persuasivo e é sobre ele que se edifica toda a eficácia da retórica liberal. É preciso que a esquerda mobilize algum esforço em tentar rebatê-lo. Apresento, de seguida, três pistas nesse sentido.

1- A chantagem da fuga de capitais é possível porque os mercados de capitais foram liberalizados. Desta forma, deverá ser retomado o anterior controlo sobre a entrada e saída de capitais que vigorou no mundo desde o pós-guerra até à ofensiva liberal dos anos 80. Esta medida seria também benéfica para o crescimento e estabilidade económica: a economia europeia cresceu a um ritmo incomparavelmente superior no tempo em que estava submetido ao controlo de capitais; e os países em desenvolvimento que cresceram mais e que resistiram melhor às diversas crises (Índia e China) foram precisamente aqueles que mantiveram algum controlo sobre o seu mercado de capitais.

2- É preciso ser mais exigente na definição dos direitos sociais considerados inegociáveis (isto é, não passíveis de serem sacrificados por nenhum preço). Se um qualquer Belmiro pressionasse o governo para reabilitar o trabalho infantil, ameaçando com a saída dos seus capitais para um país em que o trabalho infantil fosse legal, por mais que Portugal fosse prejudicado com essa fuga de capitais, tal proposta seria considerada chocante, e não teria qualquer base de apoio popular, porque violaria um direito percepcionado como absoluto e inegociável. Portugal poderia até ficar mais pobre com essa iníqua fuga de capitais, mas estaria disposto a pagar esse preço para manter a sua dignidade, protegendo um direito humano inalienável. Apesar dos ferozes ataques liberais aos direitos dos trabalhadores perpetrados nos últimos anos, existem ainda uma série de direitos (como o salário mínimo, o subsídio de férias e o direito à greve) que são, por enquanto, considerados inegociáveis. O que é necessário é, então, estender essa prerrogativa a um conjunto mais alargado de direitos sociais, limitando assim as possibilidades de chantagem dos grandes grupos económicos.

3- O argumento da fuga de capitais é utilizado tantas vezes que já é aceite como normal e legítimo. Não o é. É necessário “desbanalizá-lo”, denunciando o seu carácter chantagista e proto-criminoso. Independentemente do mérito empreendedor que um grande empresário possa ter, os seus capitais são também, em grande parte, resultado da mais-valia gerada entre o pouco que paga aos seus trabalhadores e o muito que sobra para si (isto é particularmente válido em Portugal, campeão europeu da desigualdade entre os rendimentos do capital e os rendimentos do trabalho). Nesse sentido, é legítimo defender que os capitais não pertencem inteiramente ao empresário, mas pertencem também em parte (pelo menos do ponto de vista simbólico) aos seus trabalhadores. Quem ameaça trair a sua pátria e o seu povo, fugindo com esse capital colectivamente obtido através do esforço de milhares de trabalhadores portugueses, ainda para mais apenas porque não está disposto a repartir com os mais desfavorecidos nem sequer com uma ínfima fracção da sua enorme riqueza, merece ser alvo da mesma repulsa e indignação social que nos causam actualmente os pedófilos e os funcionários da EMEL.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Só para clarificar

Isto que está aqui ao lado não é uma jibóia que acabou de comer um cavalo. É mesmo o novo reforço do Sporting.

Pela imagem, já terá havido festa no Chimarrão de Alcochete. É que desde que o Rochemback se foi embora, a freguesia ficou reduzida ao Miguel Veloso e ao Pedro Silva.
Mais vale meterem a picanha na brasa: Maniche está a caminho.

Um sítio bom para meter uma bomba é...

...o Gossip, uma disco ali para os lados das Docas.
Esta realidade é sempre verdade, mas será mais verdade ainda nesta quinta-feira.
É que nesta maravilhosa disco pseudo-beta realiza-se a segunda edição do "Rock in Law".
E o que é isto?
Basicamente é uma festa de jovens advogados.
Já percebem a cena da bomba?
É uma festa onde os futuros ministros, empresários e genericamente xulos deste país curtem ao som revolucionário de Brian Adams e Madonna. Vão também participar bandas, presumo eu que formadas por jovens e brilhantes advogados deste país, com nomes tão excelentes como "One Night Band", "Heróis do Despacho" e a minha preferida "Tier One Band".
Há que dizer que há angariação de receitas para solidariedade, bla bla bla.
Caguei. Só de pensar nisto dá-me vómitos.
A grande maioria dos advogados, especialmente estes meninos das grandes sociedades, são a verdadeira escumalha da terra. Eu devo saber: tirei o curso de Direito ao lado deles.
Nunca vi tamanha cagança, tamanha ambição, tamanha ânsia de dinheiro, poder e ascensão social.

Portanto, "if you're feeling violent", é esta quinta-feira, no Gossip. Tragam os tacos.
De baseball, não de golfe.

A frase do século

"A Costa do Marfim queria que a gente arriscasse e assumisse o jogo, mas fomos inteligentes." - Carlos Queiroz.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Navegadores de água doce

E pronto, já tá.
Agora que se acabaram os estágios na Covilhã, os intermináveis directos cheios de gente e vazios de conteúdo, os "Praças da Alegria Especial Selecção" e os concertos de Carlos BES Queiroz, toca a descer à terra.
Do jogo de Portugal, só vi com atenção a segunda parte. E achei que não jogámos nada, até as pessoas que viram o jogo me terem dito que a primeira parte foi pior. Se assim foi, então confirma-se: não jogámos um chavelho.
Houve vários problemas. Sectores demasiado distantes, perda constante das bolas divididas, completa falta de organização em ataque continuado e nas saídas para o ataque. Falta de frescura física gritante, sobretudo tendo em atenção que foi o primeiro jogo do torneio. E medo. Cagufa. Miaúfa.
Da nossa equipa safou-se o Eduardo, que fez bem o pouco que teve que fazer. Coentrão, que levou o jogo todo com um gajo do triplo do seu tamanho, mas conseguiu sair por cima. Ronaldo, a tentar.
Liedson não se viu. Continua completamente desenquadrado da equipa e é vítima de uma selecção de trincos e centrais, que o deixa sozinho lá na frente, sem qualquer apoio. Deco já não tem andamento para estas correrias. Paulo Ferreira está velho e podre, parece que corre em marcha-atrás. Dani foi metido num equívoco táctico. Pedro Mendes foi razoável, mas era preciso alguém com alguma criatividade, perante a nossa incapacidade de criar a partir da defesa. Veloso ou Moutinho foram nomes que me vieram à cabeça, mas um não está e o outro não esteve.
O resultado é justíssimo, mas pior que isso foi o facto de os marfinenses sempre, mas sempre, terem parecido mais equipa do que nós. Não há entrosamento, a táctica ou não existe ou é uma balbúrdia, e de qualquer das formas não funciona. É o que dá usar 40 jogadores diferentes no apuramento, sem dar à equipa a possibilidade de se entrosar, e depois nas escolhas deixar de fora titulares óbvios, como Moutinho, por exemplo. Também gostei do momento em que, a meio da segunda parte, metemos dois centrais a aquecer. Foi de génio. E de Mr. Queiroz ter conseguido esgotar as substituições sem meter o único avançado que tinha no banco. Ah, e de ter metido o Ruben Amorim. Então o jogo estava engatado e o mister não tem confiança nos jogadores que convocou inicialmente? Aparentemente não, porque foi tentar resolver (?) o jogo com um gajo que só está lá porque o Nani se lesionou. Se calhar só a mim é que isto faz confusão... 

Lamentáveis as declarações de Deco no final do jogo: "As alterações não foram as melhores, mas o treinador é que decide"; "O que estranho é ele me meter do lado direito, eu não sou extremo. Isto para cinco minutos depois me substituir". Para alguém que está longe de render em campo, mais valia estar calado.

Mas a cereja em cima do bolo foram as palavras do Carlos BES Queiroz, um treinador com um carisma e uma capacidade motivacional do nível de uma colher de pau meia carcomida. Depois de, antes do jogo, andar a choramingar acerca do vento e da relva, agora veio atacar a Fifa por ter deixado Drogba jogar. Um desastre absoluto e lamentável. Tal como a sua declaração de que "conseguimos um ponto contra um dos favoritos". Mas favorito a quê, alguém me explica? Já estamos contentes com esta merda? Atão não eras tu o tipo que estava com um feeling, "o mesmo do BES"?

Depois vi o Brasil-Coreia do Norte, e destes dois jogos fiquei com a clara sensação que somos, neste momento, a equipa mais frágil do grupo. Essa é a verdade, sem qualquer tipo de chauvinismo. O resultado não foi mau e dependemos de nós para passar. Mas temos de melhorar muito, e em tudo. E perceber, sobretudo, que isto só acontece de quatro em quatro anos, e como tal mais vale meter a carne toda no assador. Mais uma vez, os "Navegadores" já estão de calculadora na mão.

E, desta feita, claramente por culpa própria.

PS - Bravos coreanos.

Medo

A birra

A comissão parlamentar de inquérito sobre o caso PT/TVI, aliás, sobre o facto de o primeiro-ministro ter mentido descaradamente ao parlamento e ao povo português, está perto do fim.
Desconhece-se ainda o desfecho, porque o relatório final ainda não foi votado. O relator, o deputado bloquista João Semedo, tem um trabalho parlamentar sólido nos últimos anos. E concluiu, no relatório, que Sócrates sabia do negócio, o que é absolutamente óbvio. O próprio Sócrates, perante o insustentável absurdo da sua primeira posição, veio dizer o mesmo. Afinal sabia, informalmente. Disse uma coisa e o seu contrário, mas diz que não mentiu, o que é extraordinário.

A comissão serviu apenas para uma coisa, para fazer guerra partidária. Porque tudo foi feito para que a verdade, verdadinha, não fosse descoberta. Perguntaram aos bandidos se fizeram bandidagens, e eles disseram que não, surpreendentemente. Apesar de haver escutas a mostrar que sim, e toda a gente as conhecer. Outros, como Sócrates, responderam por escrito, num documento feitinho pelo seu advogado pago a peso de ouro. Rui Pedro Soares teve o desplante de não responder sequer.
Sócrates diz que não sabia e não deu instruções. Mas confrontado directamente com conversas suas com amigalhaços como RP Soares e Armando Vara, não nega. Diz apenas que não fala de mensagens pessoais. E ainda há gente confortável com esta explicação.
O próprio procurador de Aveiro, cuja competência técnica está há meses a ser posta em causa por membros do Governo do mesmo Estado, veio meter o dedo na ferida. "Basta ouvir as escutas, e tudo fica claro", diz. E acrescenta ser "impossível tentar saber toda a verdade deste caso sem ouvir as escutas". E defende uma tese, que outros contestam, de que as escutas podiam ser divulgadas, e tidas em linha de conta, sem violar a legalidade.

Mas tudo foi feito para fingir que as escutas não existem. Pelos socialistas e por Mota Amaral, com a complacência de todos os "formalistas" que não se importam de continuar a ser enrabados, desde que se sigam os procedimentozinhos correctos.

Gostei muito da reacção do PS ao relatório. Uma monumental birra. O problema do PS é que continua em "denial", e recusa-se a enfrentar o facto de já não ter maioria absoluta no parlamento. E que, assim, tem de obedecer a coisas chatas, como regras democráticas. Na anterior legislatura, o PS sozinho aprovou o relatório que branqueou completamente o absoluto falhanço de Vítor Constâncio na supervisão bancária. Aí, cagou para as evidências e para todos os outros partidos. Porque tinha os votos todos, e as regras permitiam-lhe fazer isso. Agora já não gosta das regras. Faz birra, porque o relatório não é um ditado da sua autoria, como os anteriores.
Apreciei acima de tudo o facto de a reacção indignada do PS, na defesa da horna e da pureza de José Sócrates, ter sido feita publicamente por Ricardo Rodrigues, AKA o "Ricky Mãozinhas". É um sinal de desnorte e de decadência absoluta de um partido e de um Governo. Ricardo Rodrigues, como deputado sempre foi medíocre, e isto sou eu a ser simpático. Tudo o que fez foi lamber os colhões ao Sócrates, sempre, falando naquele sotaque açoriano com uma arrogância e uma altivez que não tem a mais vaga correspondência ao seu valor intelectual. E, com a parvoíce dos gravadores, perdeu a pouca credibilidade que tinha. Tal como este Governo e este primeiro-ministro, está a mais, mas parece que ninguém lhe disse. E não tem a merda de um espelho em casa.

Parabéns a todos aqueles que continuam a acreditar no "sistema". Ele foi desenhado para proteger os seus, portanto é prova de que, de facto, continua a funcionar. Que haja gente que se satisfaz com isto é a prova de que temos o que merecemos.

domingo, 13 de junho de 2010

Ora obrigadinho, sim?

Vieram uns senhores do PS explicar agora que, afinal, a redução "simbólica" dos salários dos titulares de cargos políticos não se aplica a assessores ou chefes de gabinete.
Ora isto para mim tem alguns problemas, nomeadamente deixar escapar a esta norma - ainda por cima meramente simbólica - exactamente os gajos que são grande parte do problema. O problema não são os deputados. Ou os ministros ou os presidentes de Câmara. Esses nós sabemos quem são e, bem ou mal, vamos vendo o que eles fazem.
O problema está nos putos acabadinhos de sair da Católica, ou das Jotas, ou das duas coisas, que nunca trabalharam na vida e que vão logo papar uns valentes milhares de euros por mês. São gente sem rosto, que conspira na sombra. E são muitas centenas, em todo o lado.
São esses os Paulos Penedos e os Rui Pedros Soares deste país, os verdadeiros lambões, os assessores desta máquina de manipulação que mais não serve que para mascarar e perpetuar a podridão em que nos encontramos.
São estes os meninos, que vão saltando de gabinete em gabinete, sem nunca sofrerem o escrutínio público, porque ninguém sabe ao certo quem são.

Alguém me explica por que carga de água estes tipos não são atingidos? Ou vão voltar à velha lengalenga de que não se pode cortar senão a causa pública não consegue atrair os melhores?
Os melhores em quê?
Por 5 mil euros por mês, conheço muita gente competente disposta a trabalhar bem. Mas é gente honesta, e talvez o impedimento esteja aí...

Haja um mínimo de vergonha, por favor.

Politicamente correcto II

A imagem ao lado está a causar polémica, neste mundo cada vez mais desumano e desenraizado mas no qual cada vez é menos permitido sair da norma.
A bela da Claudia Schiffer fez umas fotos em que, para além da versão loura habitual, apareceu na versão oriental e também na versão negra. E aqui o caldo entornou-se. Veio uma senhora, de uma tal de revista britânica chamada Pride, atacar a imagem, pelo seu conteúdo racial. Esta revista é dedicada aos negros e, aparentemente, o look negro é exclusivo dos negros. Isto apesar dos milhares de putos brancos que falam e se vestem à preto - talvez isto seja ok por ser elogioso - ou apesar de todas as mulheres negras que se esforçam por chegar a sua imagem à da mulher branca (esticar o cabelo, maquiagem, etc, vide Beyoncés desta vida).
É típico de uma revista chamada Pride. É o velho caso de que escrever "Orgulho Branco" numa parede é racismo e xenofobia, mas escrever "Orgulho Negro" já é espectacular. É menos que isso. É só estúpido em qualquer dos casos.
O representante da senhora Schiffer já veio ceder, mostrando mais uma vez que neste mundo a estupidez reina e compensa, desde que venha do lado "dos mais fracos". Diz o senhor que lamenta, e que as imagens não tinham intenção de ofender.

Senhor representante da senhora Schiffer: ide mamar um ganda nabo.

Politicamente correcto I

A Renault vai lançar um novo modelo no mercado francês, um carro eléctrico chamado Zoe. A coisa começa a ficar estúpida quando uma parisiense de 23 anos, de seu nome Zoe Renault, contrata um advogado para obrigar o fabricante automóvel a mudar o nome do seu novo veículo. À menina, aparentemente, não passou pela cabeça processar os seus paizinhos.
A coisa fica ainda mais ridícula quando a Renault, desse país paneleiro que é a França, veio já dizer que o nome não é definitivo, indiciando que vai ceder.

Senhores Renaults: ide mamar um ganda nabo.

Resistir é vencer

Desejos de uma boa semana para todos. Que não vos faltem as forças, meus amigos.


Luto. Luta.

sábado, 12 de junho de 2010

Alegre ma non troppo

O candidato presidencial e protagonista de sonhos molhados do Amarelo, Manuel Alegre, anda um bocado desnorteado. Tendo em atenção que o seu principal rival está no exercício de funções, e como tal tem mais hipóteses de fazer merda, tudo tem desperdiçado o candidato socialista. Posso repetir, se quiserem: CANDIDATO SOCALISTA. SIM, ESSE DO SÓCRATES.

A reacção de Manuel Alegre ao discurso do 10 de Junho de Cavaco Silva foi todo um curso de trapalhada política. Primeiro não reagia, porque ninguém o conseguia encontrar. Depois mandou um comunicado à Lusa, e a coisa ficava por aí, dizia ele. Provavelmente andava entretido nalguma caçada aos gambozinos. Depois à noite voltou atrás e deu uma reacção por telefone.
Mas pior foi o conteúdo. O discurso de Cavaco foi "adequado mas excessivo", como as gajas dizem de outras gajas boazonas que "é pirosa", como se isso interessasse para alguma coisa.
E conseguiu ainda - e isto é obra - enredar-se sozinho numa contradição monumental. Primeiro diz que foi um discurso de oposição ao Governo; e criticou Cavaco por ter feito críticas sem dar alternativas, sem enunciar medidas que recomenda. Ora se ele indicasse medidas, lá estaria o Pateta Alegre, como aliás já o fez, de acusar Cavaco de se estar a imiscuir nos poderes do Governo.

Sejamos francos: vai dar-me bastante gozo ver o Alegre perder. Mas não sinto qualquer simpatia pelo obtuso Cavaco.
Era necessário tornar a tarefa deste tão fácil assim?...

Finalmente

Já cá está o Mundial.
Finalmente vamos ter bola a sério, e não esta orgia de 30 mil horas de programas de "bastidores" dos jogadores a fazerem cenas tipo comer um hamburguer, beber um copo de água ou falar incorrectamente o português (até parecem pessoas normais, que fixe!).
Eu adoro o mundial. Tal como adoro os europeus. E, ao contrário da malta que só vibra com Portugal (as gajas, nestas ocasiões, sobretudo depois do Euro), eu gosto de tudo. Há lá coisa mais fixe para um fanático da bola que ver um improvável encontro entre o tango e a raça argentina e o instinto da Nigéria? Ficou1-0 para a Argentina, já agora. O Di Maria foi titular mas não jogou a ponta, já agora.
Gosto tanto de bola que sou capaz de ver um Gana-Coreia com todo o interesse, porque há sempre combinações maradas, surpresas, nervos e, com sorte, bom futebol. Gostava de ter tirado férias só para papar os jogos todos, e até estou, como sempre, a fazer a colecção de cromos.
Disto tudo, Portugal é um pormenor. Vou ver os jogos, vou torcer, mas claramente não estou à espera de grande espingarda. Para mim os favoritos são o Brasil e a Espanha, mas vou torcer pela Argentina.

Siga a bola!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A minha mensagem do 10 de Junho

Já viram a merda que fizeram?
Já viram a merda que os deixámos fazer?







Era só isto.

Os emplastros


Anda um gajo durante décadas a dar um exemplo ao mundo para isto...




O bilhar de bolso

Há coisas que definem um povo. E o nosso amor pela mini, pela sardinha e pela bifana, provavelmente as melhores coisas - juntamente com o Benfica - que este país tem, também nos define.
Nas últimas décadas, e sobretudo nos últimos anos, não têm faltado decisões e projectos que, de uma forma ou de outra, mudam estruturalmente a maneira da nossa sociedade funcionar. Cortam-nos direitos, mudam as regras, em geral vão-nos ao cu alegremente.
Bastam alguns exemplos:
- destruição dos serviços públicos
- encerramento de escolas e hospitais em todo o interior
- mutilação da nossa língua através do aborto ortográfico
- aumento generalizado de impostos
- corte de apoios sociais, incluindo dos mais necessitados
- aumento da idade da reforma
- corte dos feriado "porque sim"
- etc etc etc (para quem discorda pode colocar a liberalização do aborto ou o casamento gay)

Serve isto para dizer que não há muitos países que, como nós, tenham sido tão manipulados e penalizados pelas suas "elites". Quase tudo com dor, com desconforto, algumas coisas com mera resignação.

Há muitos motivos para ficarmos indignados (nem vale a pena falar nas injustiças que já existiam e que foram apenas agravadas). E se há uma coisa que me irrita é meia dúzia de badamecos medíocres, como quase toda a nossa classe política actual, tomarem decisões estruturantes para todos nós, e que ficarão para as gerações vindouras.

Um dos exemplos dados é o execrável aborto ortográfico, que vai mutilar e descaracterizar brutalmente a língua que tanto amo. No facebook, essa feira de vaidades e de "gosto/não gosto", nasceu um movimento, contra esta aberração e este verdadeiro crime lesa-pátria. Tinha, se não me engano, mais de 15 mil "amigos", ou lá o que raio isso se chama. E o movimento convocou uma manifestação, com o organizador, inebriado, a prometer que toda a gente ia ter "uma surpresa" com a adesão. E a surpresa, ou talvez não, é que estavam lá 3 tipos. O empenhado organizador e mais dois.
Nós somos assim, os tipos do "agarra-me se não eu fujo". Somos uns valentes do caraças dentro dos nossos pópós, mas fugimos quando cheira a porrada. Odiamos os políticos mas depois vamos atrás das campanhas e dos beijinhos dos Portas desta vida. Queixamo-nos desta merda e depois votamos sempre nos mesmos gajos. Somos tão caguinchas que fizemos uma revolução sem sangue, com flores. Deixámos os filhos da puta fugirem todos para o Brasil, acabando por voltar e mandar nesta merda toda outra vez. Somos tão borra-botas que somos uns racistas de merda mas não temos coragem de votar no PNR.
Em vez de andarmos felizes e a foder como deve ser, vamos em rebanho ao salão erótico e dedicamo-nos ao bilhar de bolso.
Somos o país do mundo com maior taxa de penetração do facebook. Adoramos o bitaite, adoramos proncunciar-nos sobre qualquer coisa, somos os maiores nos movimentos e na quadrilhice. Desde que no recato do lar ou nas horas roubadas ao trabalho. Somos os campeões mundiais da bazófia.
Não nos peçam é para ir para a rua.
Ar livre, só no Farmville.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Rock and Roll

Led Zeppelin, nascidos em Londres em 1968



Como seriam os Led Zeppelin se tivessem nascido em Seattle vinte anos depois?

Love, peace and harmony, very nice, very nice, very nice, but maybe in the next world, maybe in the next world, maybe in the next world...

A história da Europa foi sempre a história das suas guerras fratricidas. Na primeira metade do século XX, os civilizados, cultos e sofisticados europeus escreveram essa história com um marcador bem grosso: 13 milhões de mortos na Primeira Guerra Mundial, 50 milhões de mortos na Segunda, ambas com o selo de origem “Made in Europe”. Depois de se chacinarem na mais mortífera guerra de sempre, e de terem tido a generosidade de convidar o resto do mundo para a sua chacina privativa, os europeus decidiram brincar ao amor, à paz e à harmonia entre povos: agregaram-se numa comunidade económica, com o objectivo tácito de assim preservarem a paz. É verdade que este objectivo político tem sido até agora plenamente cumprido. Mas a questão a colocar é a seguinte: quanto tempo aguenta um escorpião em dieta vegetariana, até ao dia em que se passa e morde a sua própria cauda?

A reduzidíssima taxa de participação nas eleições europeias (43% foi a média comunitária nas últimas eleições; 37% em Portugal) demonstra bem o distanciamento que os diversos povos europeus têm em relação à Europa. Será possível esta união persistir quando ela não é ancorada em nenhum sentimento espontâneo dos diversos povos que a constituem? Quando as coisas começam a dar para o torto - como sucede com a actual crise do Rating grego - os velhos egoísmos europeus emergem de novo à superfície. Os diversos Estados Europeus hesitaram durante demasiado tempo se salvariam ou não a aflita Grécia da bancarrota iminente. Depois de muito ponderar, a família europeia lá socorreu a Grécia com um empréstimo. Dividido com o FMI! E com juros de 5%! Como muito bem observou o economista Joseph Stiglitz, não se ganha dinheiro com a nossa própria família. A Europa nunca foi nem nunca será uma família, no sentido, por exemplo, em que os diversos Estados dos EUA realente o são. Não existem quaisquer laços naturais de fraternidade e de solidariedade a unir os seus povos. A Europa está unida artificialmente através da frágil teia das suas relações económicas. No dia em que esta teia se desfizer, (e já tivemos mais longe disso acontecer), os velhos ódios fratricidas regressarão. Aposto com vocês uma imperial em como daqui a vinte anos estaremos todos mortos. Uma imperial bem gelada e com imensa espuma como não existe em mais nenhum país europeu.

Bad feeling

E pronto, já temos o nosso lesionado. E não estou a falar do Carlos BES Queiroz.
É uma pena a saída de Nani, provavelmente o nosso jogador em melhor forma.
Para o seu lugar vem o meu consócio Ruben Amorim, que fez uma óptima época, é um grande profissional e pode vir a ser útil. Para além de ser português, o que começa a ser raro na selecção "portuguesa".

Ainda assim, gera alguma estranheza sair um extremo e entrar um defesa/médio. Compreendo que a escolha não é muita, mas um Makukula, um Nuno Gomes ou até um Quaresma não seria despropositado. Mas enfim, para um treinador que gosta mais de defesas centrais do que as barmaids das Docas, não seria de esperar, agora, uma decisão ofensiva.

Resta saudar a oportunidade de Ruben Amorim e desejar sorte à nossa equipa. Vão precisar dela.

Os putos

Disse o professor Cavaco, esse terror do bolo-rei, que os portugueses deviam passar mais férias em Portugal, porque isso ajudaria a economia e o nosso défice externo. Não ligando ao paternalismo de alguém que só saiu de Boliqueime obrigado, em termos económicos tem toda a razão. Eu por acaso até sou daqueles que gosta bastante de passar férias por cá, nomeadamente na costa alentejana. Belas praias, come-se bem, é barato e não é o Algarve ou o sul de Espanha.
Adiante.
Depois de Mr. Cavaco dizer de sua justiça, veio o Vieira da Silva, o ministro Zarolho que, dizem, já foi um esquerdalho a valer, rebater. Este senhor, que apesar de ser ministro da Economia percebe tanto do assunto como eu de nenúfares, veio dizer, em tom jocoso, que era perigoso dar estes conselhos, porque os dos outros países podiam fazer o mesmo e a gente perdia os turistas estrangeiros, que muita falta fazem.

Este argumento, que é tão despropositado quanto o tom utilizado, mostra bem que, no PS e no Governo, já estamos em pré-campanha para as presidenciais. A questão é que, com tantos assuntos nos quais se pode atacar Cavaco, escolher este é gastar uma munição a disparar para as árvores. O senhor Vieira da Silva, ministro da ECONOMIA, podia ter simplesmente ficado calado, e evitava ter de, em público, receber uma lição de ECONOMIA.

E Cavaco, já agora, podia ter-se coíbido de responder à parvoíce do senhor ministro.

É que o momento exigiria, digo eu, que duas das principais figuras do país não andassem aos remoques, quais putos no recreio.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Quem é...

...o político que há uns anos saiu do estúdio de televisão por ter sido interrompido pela chegada de Mourinho e ontem estava, todo lampeiro, na mesma televisão a comentar futebol?...

More than zero

Nothing to lose

“Quando chegamos ao apartamento de Rip, em Eilshire, ele leva-nos logo ao quarto de dormir onde está uma miúda nua, nova e realmente bonita, deitada no colchão. As pernas estão abertas e amarradas aos pés da cama e os braços estão atados por cima da cabeça. A vagina parece seca e tem uma espécie de urticária, e vê-se que lhe raparam os pêlos. Geme constantemente, murmurando algumas palavras, e sacode a cabeça de um lado para o outro, com os olhos semicerrados. Alguém lhe pintou a cara excessivamente e sem cuidado, e ela vai passando a língua pelos lábios, lenta e repetidamente. Spin ajoelha ao lado da cama, pega numa seringa, e diz-lhe qualquer coisa ao ouvido. A miúda nem abre os olhos. Spin espeta-lhe a seringa no braço. Eu limito-me a olhar. Trent exclama «Huau!». Rip diz qualquer coisa que não se percebe.
- Ela tem doze anos!
- E é apertada, meu - ri Spin.
- Quem é ela? - pergunto.
- Chama-se Shandra e estuda no Corvalis - é tudo o que Rip diz.
Ross está a jogar Centipede na sala, mas o som do jogo de vídeo chega até ao quarto onde estamos. Spin mete uma cassete na aparelhagem e, depois, despe a camisa e os jeans. Está de pau feito e mete-o na boca da miúda. Vira-se para nós e diz: - Podem ficar a ver, se quiserem.
Saio do quarto, seguido por Rip.
- Porquê? - É tudo quanto pergunto a Rip.
- O quê?
- Porquê, Rip?
Rip parece confuso. – Porquê aquilo, queres dizer?
Tento fazer que sim com a cabeça.
- E porque não? Qual é o mal?
- Oh, meu Deus, Rip! Ela tem onze anos.
- Doze- corrige ele.
- Está bem, doze - digo, pensando no assunto por uns instantes.
- Ei, não olhes para mim como se eu fosse uma espécie de escumalha ou coisa parecida, porque não sou.
- É que… - a voz começa a falhar-me.
- É o quê? - quer saber Rip.
- É que… eu acho que não está certo.
- O que é que está certo? Se queres uma coisa, tens direito a tê-la; se te apetece fazer qualquer coisa, tens direito a fazê-la.
Encosto-me à parede. Oiço Spin a gemer no quarto de dormir e, em seguida, o som de uma palmada, talvez na cara.
- Mas tu não precisas de nada. Tu tens tudo - digo-lhe.
Rip olha para mim. – Não, não tenho!
- O quê?
- Não, não tenho!
Faz-se uma pausa e depois pergunto: - Oh, merda, Rip! O que é que tu não tens?
- Eu não tenho nada a perder.”

(Bret Easton Ellis, in “Less than zero”)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Uma das muitas razões pelas quais a música continua a ser a segunda melhor coisa do mundo

Os amigos do meu avô foram-me ao pacote de austeridade

Um pacote de austeridade justo não deve ser igualitário. A mesma percentagem de sacrifício tem um efeito muito mais penalizador num pobre do que num rico. Desta forma, a distribuição dos sacrifícios deverá ser equitativa, variando em função das possibilidades de cada um: elevados para os muito ricos, médios para os desafogados, nulos ou negativos para os muito pobres. Sócrates, com a sua habitual hipocrisia, apresentou um plano de austeridade pseudo-equitativo, quando na realidade em muitos aspectos a equidade é nula e noutros aspectos as diferenças nos sacrifícios impostos entre pobres e ricos são tão marginais que, para além da propaganda, se tornam negligenciáveis.

O aumento de todos os escalões do IVA em 1% é um exemplo de equidade absolutamente nula. A subir algum imposto, dever-se-á sempre priorizar o IRS e o IRC em relação ao IVA. Ao contrário dos primeiros, o IVA não varia em função dos rendimentos de cada um, pelo que é um imposto cego socialmente. O aumento do IVA também para os produtos de primeira necessidade (como o pão e o leite), ainda para mais em período de crise, já não é cegueira social, é puro sadismo social.

No respeitante ao IRS, a mesma insensibilidade social perpassa o plano de austeridade. No pacote de Sócrates, os trabalhadores que ganhem entre 475€ e 2375€ irão pagar uma taxa adicional de 1%. A mim parece-me que um salário miserável de 500€, sem qualquer penalização adicional, é, já em si mesmo, um sacrifício suficientemente inaceitável. O governo acha que esse exorbitante salário de 500€ precisa de ser reduzido ainda mais um pouco.

No pacote de Sócrates, os trabalhadores que ganhem mais de 2375€ irão pagar uma taxa de IRS adicional de 1,5%. Tradução: a diferença na distribuição dos sacrifícios entre um trabalhador pobre que ganhe 500 euros e um trabalhador rico que ganhe 500 mil euros é de 0,5%. A essa diferença de meio ponto percentual na distribuição da austeridade, o Sr. Sócrates chama de "equidade". Há pessoas de má fé que chamariam à mesma diferença de "hipocrisia".

O plano de Sócrates prevê igualmente que as sociedades com lucros superiores a 2 milhões de euros vão pagar mais 2,5% de IRC. O que significa que a diferença na distribuição dos sacrifícios entre capital e trabalho se resume a 1% no mínimo e a 1,5% no máximo. Excepto a banca que vai continuar a manter o privilégio fiscal de pagar apenas 10% de IRC. Estamos conversados em matéria de equidade.

Mas o único problema deste pacote de austeridade não é só ser pouco equitativo.É também economicamente estúpido. Deixarei esse tema para uma próxima posta.

domingo, 6 de junho de 2010

Um dos nossos

Morreu o João Aguiar. Muito boa gente não o conhece, o que diz muito acerca da forma como tratamos as nossas figuras literárias. Neste mundo actual de Rodrigues dos Santos, Sousas Tavares e Rebelos Pintos, ninguém quer saber de certos gajos do antigamente, mesmo que não sejam tão do antigamente assim. Os únicos que resistem são os consensuais Lobo Antunes e Saramago, que são efectivamente os vultos maiores da literatura portuguesa.
Mas depois há tipos muito bons, como o Mário Zambujal e o João Aguiar, por exemplo.

Eu meto os dois nesta categoria, porque ambos carregam os seus livros com humor, são mordazes, lembram-me os anos 80 do "Arranja-me um emprego", do Sérgio Godinho.

O primeiro livro do João Aguiar que li foi "Os comedores de pérolas", que é relativamente atípico na sua obra. Comprei-o há uns cinco anos na Fnac do Chiado, numa daquelas séries baratuxas, o que possibilita a compra de livros só para descobrir autores, sem grande custo. Isto sim, é serviço público.

Não sabia o que esperar, e adorei "Os comedores de pérolas". Passa-se em Macau, mete um tuga exilado, tríades, mistério, mulheres, aventura e exotismo. Tudo com uma contemporaneidade verdadeira e refrescante, de quem fala o que ouvimos em Lisboa, em Portugal, na era moderna.
Depois, mais tarde, li "O Navegador Solitário", uma obra mais profunda, menos "aventureira" mas mais típica do seu estilo muito próprio. É também um óptimo livro. Já este ano voltei a ele, lendo "A encomendação das almas", que já não gostei tanto. É um escritor que deambulou entre a recolha histórica e a crítica/visão da sociedade moderna e da sua evolução (?) nas últimas décadas. O seu último livro, "O priorado do cifrão", que não li, é uma feroz crítica ao sistema actual das editoras. Um homem que, apesar de alguma indiferença do meio, fez questão de se afirmar como relevante, e sempre actual. Foi escritor, jornalista, cidadão de corpo e inteiro.

Para quem, como eu, tem na literatura muitos heróis, com o desaparecimento de João Aguiar perdi mais um deles. Levou-me em várias viagens, todas elas interessantes. Era, e é, um dos nossos.

Sunday Morning

"- O oceano - disse eu-, olha para ele, ali fora, a bater, a rastejar para cima e para baixo. E, por baixo de tudo aquilo, os peixes, os pobres peixes que lutam uns contra os outros, que se comem uns aos outros. Nós somos como aqueles peixes, mas estamos aqui em cima. Um passo em falso e estamos tramados. É bom ser um campeão. É bom saber dar os passos certos." (Bukowski, in "Correios")

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Encerrado

Creio ser relativamente incontroverso dizer que há sectores que sofreram terríveis maus tratos nos últimos 15 anos: a saúde, a educação, a justiça, para falar apenas de alguns.

Em todos eles, os cidadãos e os agentes que trabalham nesses sectores foram tratados como meras cobaias. No caso da educação, a ofensiva tem sido gigantesca, ajudada por uma opinião pública que, por natureza, odeia os funcionários públicos e, entre estes, odeia sobretudo os professores. Não sei porquê, talvez seja trauma ou coisa assim. A esmagadora maioria dos meus professores foi muito, muito fraquinha, mas alguns dos poucos bons que apanhei tiveram um influência decisiva na minha educação.
Vem isto a propósito do encerramento, a curto prazo, de 900 (!!!!!!) escolas em Portugal. Isto foi dito pela senhora ministra, que ao contrário da outra é uma querida (sendo essa a sua única qualidade no cargo que ocupa), isto foi dito com um despudor, uma naturalidade que me confirmou, mais uma vez, que este povo aceita tudo. Estamos anestesiados, cansados, deprimidos. Já sabemos que vamos levar no cu, mais vale não nos debatermos, para que acabe depressa e possamos ir anestesiar para casa, ver o mundial no plasma novo.
900 escolas num país deste tamanho é um encerramento massivo. Não são ajustes. É encerrar metade do país. E isto é dito como se não fosse nada. Há 900 escolas cujos alunos, pais, professores e auxiliares, terão a vida afectada, por uma decisão ligeirinha do ministério.
Diz a senhora ministra Alçada que isto não é feito por motivos economicistas (é absolutamente óbvio que é). É feito, diz ela, para melhorar a qualidade do ensino. Diz que há muitas escolas que têm poucos alunos, mesmo depois de os "socialistas" terem fechado escolas em barda nos últimos anos, alegando a mesma coisa. E que muitas escolas têm pouco mais de 30 alunos, e apenas um professor. Um gajo que não percebesse nada disto, como eu, diria que a maneira de resolver a escassez de professores seria o Estado fazer aquilo para o qual recebe os nossos impostos, e enviar para essas escolas mais professores. Mas não, isto seria idiota. O remédio é fechar as escolas. O remédio é fazer as crianças estudarem a 30 km de casa, no interior, com estradas de curva e contracurva em muitos sítios. Sim, isto sim é uma boa solução. Obrigando os pais a acordar ainda mais cedo, a perder mais tempo no caminho, roubando tempo à família, ao tempo em casa, e até ao estudo. Tudo para termos escolinhas normalizadas e, claro, todas no litoral e nos grandes centros urbanos.

Isto é apenas mais uma faceta da campanha negra da destruição do interior de Portugal. Escolas e centros de saúde são para fechar. Ponto final. Esta gente não percebe que, assim, a tendência nunca mais se vai inverter. Com gente inteligente, percebia-se o problema e desenhavam-se políticas proactivas para o resolver. Dando incentivos a professores e médicos a irem para o interior, reduzindo os escalões fiscais de quem residisse nessas zonas desertificadas, por exemplo. Coisas maradas e irrealizáveis, que por acaso os países mais desenvolvidos do mundo já fazem.
Mas não, esses tipos não sabem nada. Os xuxas é que são bons.
Há lá pouca gente? Atão fecha-se aquela merda toda! O resultado? Mais desertificação e mais concentração nos centros urbanos, cuja capacidade de absorção não é ilimitada.

Isto dá força à velha conversa anti-centralista, anti-Lisboa, etc. O que eu acho fabuloso é que não há gajos mais centralistas que os gajos que vêm da província, para Lisboa. Vejam os Sócrates desta vida (e são muitos, muitos e de todos os partidos de poder): chegam cá, choram umas lágrimas de crocodilo pelo interior de onde vieram, e depois sufocam a sua existência. Para fingir que fazem algo, lá está, toca a construir uma auto-estrada até à aldeia, para alimentar alguns amigos construtores, uma auto-estrada que não vai servir ninguém, porque ninguém quer morar num sítio sem condições para si e para a sua família.

Eu, que sou de Lisboa, gosto mais do interior do que os gajos que vêm de lá para mandar nesta merda.

E volto a repetir: as pessoas de todo o território nacional são cidadãs nacionais, pagam impostos como nós e têm os mesmos direitos. Não podem ser forçados a abdicar do direito à educação e à saúde só porque escolheram não viver nas cidades grandes! Já temos gente a ir meter combustível a Espanha; a ir ao médico a Espanha; vamos ter agora gente a ir à escola em Espanha?

É isto que queremos, esta obsessão parola de "modernizar" este país nem que para isso tenhamos de o destruir?

O Disco da Minha Vida X

Meus senhores, agora estamos em território sagrado. São tipos como estes que fazem poias fumegantes como DZRT, U2 (sim, sim, caralho!) e Miley Cyrus serem proibidos de se intitularem músicos, sob pena de serem atirados de um penhasco realmente alto.
O Tom Waits é um tipo tão fascinante, tão bizarro e tão talentoso, que não vou sequer perder tempo a falar dele, dedicando-me à sua obra. Para um tipo que sempre fez o que lhe deu na gana, e que anda a fazer discos desde os anos 60, é muito complicado escolher o seu melhor disco. E eu nem estou a tentar, este é apenas o meu preferido.

"One from the heart", de 1982 (deixo a capa original e a da reedição). A banda sonora do filme absolutamente fabuloso de Coppola. O filme é uma fantasia romântica e dramática de duas pessoas que se amam mas que falharam absolutamente nesse seu amor. O cenário (é mesmo cenário, e é lindo) é Las Vegas, terra da sorte e do azar. E o casal brinca com a sorte e com o azar. Chega a um ponto em que, com a vidinha sem sair do mesmo sítio, se apercebem que já não se suportam. Ela sai de casa e enamora-se do Raoul Julia. Ele descobre uma Nastassja Kinski ninfeta, absolutamente irresistível. E, apesar de toda a emoção de novos encontros, e até de uma nova vida, não desaparece a nostalgia do que se deixou para trás. É um filme sobre desagregação, de como por vezes é impossível não deixar estragar algo que muito se estima.
E, por cima de tudo, a música de Tom Waits. Esta é a banda sonora mais banda sonora que existe. Ou seja, não é música 'inspired by', mas também não cai no extremo oposto, que é o ridículo do musical, em que as personagens desatam a cantar a meio das cenas. Ao invés, a música aparece no filme, e vai contando a história, dando atmosfera, descrevendo, cavando a depressão e a esperança das personagens.
Neste disco, Waits partilha o foco com Crystal Gayle, cuja é voz é tão cristalina como a de Waits é gravilha e wisky. E é essa mistura que funciona, a voz cansada dele, lamentando-se do mundo e gozando com a sua própria desgraça, e ela sofrendo também, sensual, a ameaçar tudo o que fará se ele continuar a não a tratar como ela merece. É um disco absolutamente conceptual, coerente, completo. Mas é, sobretudo, um disco muito, muito bonito, de um tipo que não faz "discos bonitos".
Este é provavelmente o disco mais comercial de Waits. É o disco que dá para mostrar às namoradas que dizem que não gostam de Tom Waits, e fazê-las mudar de opinião. Não é tão genial como "Mule Variations", por exemplo, nem tão carismático como o velhinho e histórico "Nighthawks at the diner". E para um gajo armado ao alternativo como eu, não é fácil destacar este bonito "One from the Heart". Mas a sua beleza jazzy, triste, melancólica e enternecedora dá cabo de qualquer coração empedernido, mesmo de um melómano com a mania que é diferente.

Já agora, quem não viu o filme faça um favor a si mesmo. É mesmo uma coisa do outro mundo.

Tom Waits, the man. Com um dos discos da minha vida.