Ainda não fui ver, mas estreou na semana passada um dos filmes pelo qual mais aguardei, a biografia de Serge Gainsbourg.
Já o disse muitas vezes, aliás, digo-o sempre que posso: Gainsbourg foi somente o maior génio musical desde Beethoven.
Ponto.
Para muitos, Serge nunca foi mais que aquela figura vagamente alcoolizada, rodeado de mulheres bonitas. E sim, isso faz parte do mito de Serge e completa toda a sua fascinante personagem. Mas nada disso importaria se não fosse a música. Diz-se de Bowie que é "o camaleão", devido às muitas fases e mutações da sua carreira, mas perante Gainsbourg Bowie seria um contabilista conservador e aborrecido. A melhor fase de Serge foi de meio dos anos 60 a meio dos anos 70, mas produziu até aos anos 90. Fez de tudo, e fez sempre bem. Foi percursor de tudo, e as suas influências podem, hoje, ver-se em todo o lado. E é por isso que fico feliz por haver este filme. Porque pode expor a fabulosa música de Serge a gente que nunca o conheceu, que nunca lhe deu uma oportunidade, que com ele nunca se cruzou.
Deixo-vos aqui um vídeo retirado do seu melhor disco "Melody Nelson", com ele e a então deslumbrante ninfeta Jane Birkin, e um excerto de uma entrevista que Birkin deu, este mês, ao Jornal de Notícias.
Jornal de Notícias: Na sua vida pessoal, como encara a memória de Serge? Costuma ouvir os discos dele, por exemplo?
Jane Birkin: Não, nunca olho para trás. Tive o melhor do Serge. Mas continuo a cantar as suas canções. Também me conhecem por isso. As canções mais interessantes são as que ele escreveu quando o deixei.
JN: Porque diz isso?
JB: É verdade, os três últimos discos dele são o melhor período. Como o "L'amour des feintes", que escreveu três meses antes de morrer e em que desenhou o meu rosto na capa. Telefonou-me na véspera de morrer. E comprou-me um anel três dias antes de morrer. Abençoo-o por isso, por manter essa amizade comigo até morrer.
JN: Qual foi a verdadeira influência dele na música francesa?
JB: Há um antes e um depois de Serge Gainsbourg. Mudou a música francesa de uma forma radical. Há livros sobre ele. Na escola, a música dele é estudada. Ele revolucionou a língua francesa. As pessoas têm saudades dele porque ele dizia exactamente o que pensava. E era uma pessoa tão querida. Não há hoje ninguém como ele.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
A bola é quadrada
Se a política nacional fosse futebol, o último ano teria sido um jogo não muito bem jogado, mas muito interessante tacticamente.
Senão vejamos.
Passos Coelho é eleito, reforça o PSD. Sócrates ficou à rasca.
Depois é o congresso do PSD, que naturalmente deu a Passos Coelho um novo "elan". Sócrates fica pensativo, e um pouco mais apertado.
Repois rebenta a bronca das contas públicas. Sócrates fica apertado, Passos Coelho finge-se de responsável e assume os PEC I e II. Passos Coelho dispara nas sondagens, digamos que, nessa altura, estava "por cima no jogo".
Depois, inchado e demasiado confiante qual Jorge Jesus, dá uma de Carlos Queiroz e faz uma substituição suicida. A revisão constitucional foi o Paulo Torres de Passos Coelho.
Deu o flanco a Sócrates. Este percebeu que o flanco esquerdo do adversário estava desguarnecido, e canalizou por aí todos os seus ataques, através do extremo "I love Estado Social".
E eis que, de repente, Passos Coelho teve, finalmente, a sorte do jogo, na forma de um penalti infantil concedido pela equipa adversária.
Por outras palavras, a situação actual, com o rompimento das negociações para o OE, é a melhor coisa que lhe podia ter acontecido.
Este é o raciocínio:
Eu acho que Passos Coelho se vai abster e, assim, viabilizar este péssimo orçamento. Mas já conseguiu uma coisa, não se sujar muito e passar por responsável.
Depois do ultimato a Sócrates, para o qual este cagou de alto, Passos Coelho estava desesperado por uma única coisa: como ceder sem perder a face. E a intransigência do PS deu-lhe a escapatória perfeita.
Passos Coelho vai abster-se. Vai dizer: "vou ser responsável e evitar que venha para aí o FMI. Fui responsável porque quis negociar, fiz propostas concretas e o Governo foi irredutível e não quis negociar, não quis melhorar este mau orçamento. Mas este não é apenas um mau orçamento, é um orçamento da exclusiva responsabilidade do PS, e por ele deverá ser julgado".
É perfeito.
Não passa por irresponsável e pode fingir que tentou melhorar o documento, e que o PS não deixou. E mais, no dia a seguir à aprovação do orçamento, tem caminho livre para malhar forte e feio no PS, uma vez que não está vinculado ao orçamento, o que aconteceria se votasse a favor, após acordo com Sócrates.
Quem quer que ganhe, perde o país.
Mas, se isto não fosse gravíssimo, seria um jogo muito interessante.
Deste Sócrates eu gosto.
Senão vejamos.
Passos Coelho é eleito, reforça o PSD. Sócrates ficou à rasca.
Depois é o congresso do PSD, que naturalmente deu a Passos Coelho um novo "elan". Sócrates fica pensativo, e um pouco mais apertado.
Repois rebenta a bronca das contas públicas. Sócrates fica apertado, Passos Coelho finge-se de responsável e assume os PEC I e II. Passos Coelho dispara nas sondagens, digamos que, nessa altura, estava "por cima no jogo".
Depois, inchado e demasiado confiante qual Jorge Jesus, dá uma de Carlos Queiroz e faz uma substituição suicida. A revisão constitucional foi o Paulo Torres de Passos Coelho.
Deu o flanco a Sócrates. Este percebeu que o flanco esquerdo do adversário estava desguarnecido, e canalizou por aí todos os seus ataques, através do extremo "I love Estado Social".
E eis que, de repente, Passos Coelho teve, finalmente, a sorte do jogo, na forma de um penalti infantil concedido pela equipa adversária.
Por outras palavras, a situação actual, com o rompimento das negociações para o OE, é a melhor coisa que lhe podia ter acontecido.
Este é o raciocínio:
Eu acho que Passos Coelho se vai abster e, assim, viabilizar este péssimo orçamento. Mas já conseguiu uma coisa, não se sujar muito e passar por responsável.
Depois do ultimato a Sócrates, para o qual este cagou de alto, Passos Coelho estava desesperado por uma única coisa: como ceder sem perder a face. E a intransigência do PS deu-lhe a escapatória perfeita.
Passos Coelho vai abster-se. Vai dizer: "vou ser responsável e evitar que venha para aí o FMI. Fui responsável porque quis negociar, fiz propostas concretas e o Governo foi irredutível e não quis negociar, não quis melhorar este mau orçamento. Mas este não é apenas um mau orçamento, é um orçamento da exclusiva responsabilidade do PS, e por ele deverá ser julgado".
É perfeito.
Não passa por irresponsável e pode fingir que tentou melhorar o documento, e que o PS não deixou. E mais, no dia a seguir à aprovação do orçamento, tem caminho livre para malhar forte e feio no PS, uma vez que não está vinculado ao orçamento, o que aconteceria se votasse a favor, após acordo com Sócrates.
E é com este presente táctico que o PSD pode ganhar o jogo, embora pouco tenha feito para o merecer.
Sócrates, desesperado, de cabeça perdida e com jogadores a menos, meteu a mão à bola dentro da área.
Agora é só Passos Coelho converter o penalti.
Mas, se isto não fosse gravíssimo, seria um jogo muito interessante.
Deste Sócrates eu gosto.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
O paradoxo presidencial
Há um paradoxo à volta destas eleições presidenciais: Alegre só daria um bom presidente se o PS, partido a que pertence, não estivesse no poder.
Eu explico, apesar de ser bastante simples.
Alegre é um lírico, numa altura em que falta lirismo na política. O problema dele não é esse: é ser um cobarde e um hipócrita. E não há pessoa menos lírica e mais realpolitik do que Sócrates, que era capaz de vender a sua própria mãe para impingir uns Magalhães de exportação.
Alegre fala contra "os poderosos da Europa" e contra os "especuladores internacionais". Sócrates age como um lacaio de Merkel e da Goldman Sachs.
Há, obviamente, um fosso total entre as ideologias políticas de Alegre e Sócrates. O que me faria claramente votar em Alegre, se ele fosse consequente ou mais do que um "idiota útil". Vai ser muito curioso ver a campanha de Alegre. Ver os discursos - em que veremos Louçã a aplaudir ferverosamente se ele soltar a sua verve esquerdista, e com os jornalistas a perguntar a Sócrates se ele se sente atingido pelos recados de Alegre - , e ver como Louçã e Sócrates, e como os jovens membros das máquinas partidárias de BE e PS, se vão dar. Promete ser delicioso, não fosse a aura de fim de festa que, inevitavelmente, vai invadir essa mesma campanha.
Alegre tentou, há uns meses atrás, quando anunciou a sua candidatura, fazer de Cavaco um perigoso beligerante. Dizia ele que "o actual presidente tem de entender que o papel do presidente não é governar, nem ser contra-poder". Ora o que acontece é que se há crítica que se pode fazer a Cavaco é que ele não fez nada, rien, a ponta de um corno, durante o seu mandato. Não foi contra-poder. Deixou Sócrates governar como bem entendeu. Mais, suportou de Sócrates todas as tropelias do próprio e da sua incrível entourage xuxa. Foi tolerante e institucional para além de todo o bom-senso. Escondeu-se. E Alegre ficou sem argumento, até por grande incompetência própria.
Depois, Alegre ultimamente tem falado pouco. Porquê? Porque ao falar agora, e ser consequente com as suas opiniões (coisa que nunca foi), teria de se colocar contra Sócrates e este OE absolutamente assassino, num momento em que o PS e o Governo estão frágeis, pelo que qualquer discordância pública seria vista como uma facada nas costas, sobretudo num partido tão sensível à crítica.
A verdade é que, das poucas vezes que tem falado, - e procurando acentuar o seu lado esquerdista - diz sempre que "se eu fosse presidente, não permitiria isto, não permitiria aquilo, o grande capital, etc, etc". A verdade é que, se ele fosse eleito e fizesse metade do que promete, seria um pesadelo para Sócrates. A ideologia deste último é, claro, liberal, e muito mais próxima da de Cavaco do que da de Alegre.
A verdade é que, se Sócrates fez tudo o que bem lhe apeteceu com Cavaco na presidência, para que raio quereria Alegre lá? Resposta: não quer. Nem pintado. Era só a pior coisa que lhe podia acontecer, a seguir ao Diogo Infante decidir emigrar.
Alegre, neste seu estilo pseudo-a mim ninguém me cala e pseudo-interventivo, só seria útil numa circunstância: se o PSD estivesse no Governo.
É este o paradoxo: Sócrates apoia um candidato que só lhe seria útil se ele próprio não estivesse no poder. E apoia Alegre quando, em termos ideológicos, é puro laranja e cavaquista.
É claro que Alegre, se fosse eleito, não iria realmente incomodar Sócrates. Ia meter a viola no saco, como tem feito ao longo dos últimos 10 anos no PS. Mas seria um filão a explorar, depois de se armar em esquerdalho e forte, sabendo todos nós o que teve ele de prometer a Sócrates para ter o seu apoio.
Posto isto, continuo sem saber em quem votar. E o cabrão do Vieira que não consegue as assinaturas...
Eu explico, apesar de ser bastante simples.
Alegre é um lírico, numa altura em que falta lirismo na política. O problema dele não é esse: é ser um cobarde e um hipócrita. E não há pessoa menos lírica e mais realpolitik do que Sócrates, que era capaz de vender a sua própria mãe para impingir uns Magalhães de exportação.
Alegre fala contra "os poderosos da Europa" e contra os "especuladores internacionais". Sócrates age como um lacaio de Merkel e da Goldman Sachs.
Há, obviamente, um fosso total entre as ideologias políticas de Alegre e Sócrates. O que me faria claramente votar em Alegre, se ele fosse consequente ou mais do que um "idiota útil". Vai ser muito curioso ver a campanha de Alegre. Ver os discursos - em que veremos Louçã a aplaudir ferverosamente se ele soltar a sua verve esquerdista, e com os jornalistas a perguntar a Sócrates se ele se sente atingido pelos recados de Alegre - , e ver como Louçã e Sócrates, e como os jovens membros das máquinas partidárias de BE e PS, se vão dar. Promete ser delicioso, não fosse a aura de fim de festa que, inevitavelmente, vai invadir essa mesma campanha.
Alegre tentou, há uns meses atrás, quando anunciou a sua candidatura, fazer de Cavaco um perigoso beligerante. Dizia ele que "o actual presidente tem de entender que o papel do presidente não é governar, nem ser contra-poder". Ora o que acontece é que se há crítica que se pode fazer a Cavaco é que ele não fez nada, rien, a ponta de um corno, durante o seu mandato. Não foi contra-poder. Deixou Sócrates governar como bem entendeu. Mais, suportou de Sócrates todas as tropelias do próprio e da sua incrível entourage xuxa. Foi tolerante e institucional para além de todo o bom-senso. Escondeu-se. E Alegre ficou sem argumento, até por grande incompetência própria.
Depois, Alegre ultimamente tem falado pouco. Porquê? Porque ao falar agora, e ser consequente com as suas opiniões (coisa que nunca foi), teria de se colocar contra Sócrates e este OE absolutamente assassino, num momento em que o PS e o Governo estão frágeis, pelo que qualquer discordância pública seria vista como uma facada nas costas, sobretudo num partido tão sensível à crítica.
A verdade é que, das poucas vezes que tem falado, - e procurando acentuar o seu lado esquerdista - diz sempre que "se eu fosse presidente, não permitiria isto, não permitiria aquilo, o grande capital, etc, etc". A verdade é que, se ele fosse eleito e fizesse metade do que promete, seria um pesadelo para Sócrates. A ideologia deste último é, claro, liberal, e muito mais próxima da de Cavaco do que da de Alegre.
A verdade é que, se Sócrates fez tudo o que bem lhe apeteceu com Cavaco na presidência, para que raio quereria Alegre lá? Resposta: não quer. Nem pintado. Era só a pior coisa que lhe podia acontecer, a seguir ao Diogo Infante decidir emigrar.
Alegre, neste seu estilo pseudo-a mim ninguém me cala e pseudo-interventivo, só seria útil numa circunstância: se o PSD estivesse no Governo.
É este o paradoxo: Sócrates apoia um candidato que só lhe seria útil se ele próprio não estivesse no poder. E apoia Alegre quando, em termos ideológicos, é puro laranja e cavaquista.
É claro que Alegre, se fosse eleito, não iria realmente incomodar Sócrates. Ia meter a viola no saco, como tem feito ao longo dos últimos 10 anos no PS. Mas seria um filão a explorar, depois de se armar em esquerdalho e forte, sabendo todos nós o que teve ele de prometer a Sócrates para ter o seu apoio.
Posto isto, continuo sem saber em quem votar. E o cabrão do Vieira que não consegue as assinaturas...
Boçal
E pronto, habemos Cavaco.
Eu achava que "notícia" era algo até então não conhecido, ou surpreendente, ou coisa assim. Apesar disso, os jornais da noite abriram com a "notícia" bombástica: Cavaco é candidato à Presidência da República.
Já nem vou falar da aberração que é ter sido Marcelo Rebelo de Sousa a anunciar o anúncio. Mas isto foi uma tristeza.
O discurso pobre. Sem chama. Sem imaginação. Sem mundo.
No fundo, tudo aquilo que Cavaco é, por mais que se esforce em sentido contrário.
O momento actual é o melhor momento possível para Cavaco ganhar estas eleições, e à primeira volta. Num panorama dominado por um Sócrates trafulha e por um Passos Coelho saltarico e imberbe, Cavaco pode tirar partido do seu maior capital: a seriedade e honestidade que os portugueses insistem em ver na sua figura.
Para o tuga, basta estar calado para ser sério, e competente. Foi assim que Cavaco ganhou todas as eleições, de facto.
Em terra de cegos, quem tem meio olho vesgo é rei.
Cavaco vai ganhar, à grande e à vontade. E isso diz tanto do nosso país como da miserável concorrência que se lhe apresenta.
Eu achava que "notícia" era algo até então não conhecido, ou surpreendente, ou coisa assim. Apesar disso, os jornais da noite abriram com a "notícia" bombástica: Cavaco é candidato à Presidência da República.
Já nem vou falar da aberração que é ter sido Marcelo Rebelo de Sousa a anunciar o anúncio. Mas isto foi uma tristeza.
O discurso pobre. Sem chama. Sem imaginação. Sem mundo.
No fundo, tudo aquilo que Cavaco é, por mais que se esforce em sentido contrário.
O momento actual é o melhor momento possível para Cavaco ganhar estas eleições, e à primeira volta. Num panorama dominado por um Sócrates trafulha e por um Passos Coelho saltarico e imberbe, Cavaco pode tirar partido do seu maior capital: a seriedade e honestidade que os portugueses insistem em ver na sua figura.
Para o tuga, basta estar calado para ser sério, e competente. Foi assim que Cavaco ganhou todas as eleições, de facto.
Em terra de cegos, quem tem meio olho vesgo é rei.
Cavaco vai ganhar, à grande e à vontade. E isso diz tanto do nosso país como da miserável concorrência que se lhe apresenta.
...e o Sporting é isto
"Salomão, por seu turno, sofreu um traumatismo no joelho esquerdo na sequência de um choque com um banco de suplentes." A BOLA, 25-10-2010.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A Feira Popular
Quando era pequeno, adorava ir à Feira Popular.
Eu sei que os tempos são outros. Que agora há playstations e "funcenters" por toda a parte. Mas, ainda assim, acho que havia espaço para a Feira Popular, para os jantares de grupo, para aquela atmosfera burlesca e decadente, bem no meio da nossa querida cidade. Para esse aterrador resquício das brumas dos anos 80, o "Poço da Morte".
Como se recordam, a Feira Popular foi encerrada como contrapartida para o Casino de Lisboa. Depois o Casino foi para a Expo, depois de estar previsto para o Parque Mayer, outro espaço de outros tempos que reclama atenção. E, no meio de tudo isto, a Feira Popular foi esquecida. Até o seu nome é um anacronismo, um delírio de um tempo em que Popular, e Povo, não eram palavras vãs e 'démodés'.
Não havia hipermercados nem Toys R Us, e o espaço de brincadeira mais sofisticado era o salão de jogos, em que durante muito tempo não nos deixavam entrar, por sermos muito pequenos e por não termos dinheiro.
Vivi até aos 20 e tais em Carcavelos, o melhor subúrbio do mundo. Vinha a Lisboa passar o fim de semana com o meu pai, todas as semanas. Mas só ia à Feira Popular aí umas 3 vezes por ano. Feira Popular, para mim, era sinónimo de frango assado, algodão doce, pipocas, e brincadeiras. Só uma vez andei na Montanha Russa, tinha medo, medo que se confirmou quando lá andei, para nunca mais. Gostava muito do comboio fantasma, e uma vez fui com o meu primo João, que entrou com uma espada de brincar e saiu sem ela. Andava nos póneis sedados e pachorrentos, que andavam aborrecidamente à volta. Andava nos carrosséis, naqueles que eram carros e a gente ia lá dentro. Andava nos carrinhos de choque e jogava nas máquinas de luta, e aí não era preciso sermos grandes para jogar.
Eu sei que os tempos são outros. Que agora há playstations e "funcenters" por toda a parte. Mas, ainda assim, acho que havia espaço para a Feira Popular, para os jantares de grupo, para aquela atmosfera burlesca e decadente, bem no meio da nossa querida cidade. Para esse aterrador resquício das brumas dos anos 80, o "Poço da Morte".A Feira Popular está agora como estas imagens, sacadas ao acaso da net, demonstram.
Como se recordam, a Feira Popular foi encerrada como contrapartida para o Casino de Lisboa. Depois o Casino foi para a Expo, depois de estar previsto para o Parque Mayer, outro espaço de outros tempos que reclama atenção. E, no meio de tudo isto, a Feira Popular foi esquecida. Até o seu nome é um anacronismo, um delírio de um tempo em que Popular, e Povo, não eram palavras vãs e 'démodés'. Está assim, ao abandono. E, no meio de tudo isto, alguém encheu os bolsos. E ninguém diz nada, ninguém faz nada, ninguém vai preso, ninguém é responsabilizado.
Foi o Santana, podia ter sido qualquer um.
Lembrei-me da Feira Popular porque ela é um símbolo perfeito do que este sistema partidário tem feito ao nosso país. Tal como a Feira Popular, também o pais está abandonado, a saque, sugado de tudo o que ainda tinha.
E alguns mais gordos, bem mais gordos...
Jogo de Espelhos
A malta anda confusa, e não é para menos.
Veja-se o comportamento do último par romântico da política nacional, José Sócrates e Pedro Passos Coelho.
O primeiro, depois de anos a favorecer os privados e a desmantelar o Estado Social, faz deste a sua bandeira. Depois de anos a esbanjar a nossa guita, em favores aos muitos amigos xuxas/maçons que controlam este país, de repente tornou-se no Mr. Scrooge, avarento e resmungão. Em 2009, em plena crise e ano de 3 eleições, deu o maior aumento da década aos funcionários públicos, defendendo uma política expansionista e classificando de louca Manuela Ferreira Leite, que pregava equilíbrio e austeridade. E agora faz o que criticava, sendo o melhor exemplo o corte das deduções fiscais dos PPR, defendido há um ano por Louçã e na altura ferozmente rejeitado por Sócrates.
Por outro lado, Passos Coelho passou tempo todo - tirando aquele em que ia dando tiros nos pés, nos braços e na própria tola - a pedir mais austeridade. A dizer - e com razão - que o Governo não fazia qualquer consolidação das contas públicas, que era preciso cortar no investimento, TGV's, etc. Agora que Sócrates decidiu corrigir toda a sua incompetência com um corte a direito, que afecta sobretudo os mais pobres, Passos Coelho já não gosta, diz que é austeridade a mais.
A verdade é que, em teoria, está tudo errado. É normal e tradicional no PSD que peça consolidação, menos investimento. E é normal que o PS, supostamente de esquerda, defenda mais gastos do Estado, mais investimento, mais apoios sociais.
O problema é que, devido a necessidades e tácticas eleitorais, as prioridades mudaram, e está tudo misturado, quando não está mesmo ao contrário.
Na verdade, Passos Coelho e José Sócrates são Jekyll e Hide, duas faces da mesma moeda, de "O Médico e o Monstro". Infelizmente nenhum é médico para curar este país.
Infelizmente ambos são o monstro.
Veja-se o comportamento do último par romântico da política nacional, José Sócrates e Pedro Passos Coelho.
O primeiro, depois de anos a favorecer os privados e a desmantelar o Estado Social, faz deste a sua bandeira. Depois de anos a esbanjar a nossa guita, em favores aos muitos amigos xuxas/maçons que controlam este país, de repente tornou-se no Mr. Scrooge, avarento e resmungão. Em 2009, em plena crise e ano de 3 eleições, deu o maior aumento da década aos funcionários públicos, defendendo uma política expansionista e classificando de louca Manuela Ferreira Leite, que pregava equilíbrio e austeridade. E agora faz o que criticava, sendo o melhor exemplo o corte das deduções fiscais dos PPR, defendido há um ano por Louçã e na altura ferozmente rejeitado por Sócrates.
Por outro lado, Passos Coelho passou tempo todo - tirando aquele em que ia dando tiros nos pés, nos braços e na própria tola - a pedir mais austeridade. A dizer - e com razão - que o Governo não fazia qualquer consolidação das contas públicas, que era preciso cortar no investimento, TGV's, etc. Agora que Sócrates decidiu corrigir toda a sua incompetência com um corte a direito, que afecta sobretudo os mais pobres, Passos Coelho já não gosta, diz que é austeridade a mais.
A verdade é que, em teoria, está tudo errado. É normal e tradicional no PSD que peça consolidação, menos investimento. E é normal que o PS, supostamente de esquerda, defenda mais gastos do Estado, mais investimento, mais apoios sociais.
O problema é que, devido a necessidades e tácticas eleitorais, as prioridades mudaram, e está tudo misturado, quando não está mesmo ao contrário.
Na verdade, Passos Coelho e José Sócrates são Jekyll e Hide, duas faces da mesma moeda, de "O Médico e o Monstro". Infelizmente nenhum é médico para curar este país.
Infelizmente ambos são o monstro.
sábado, 23 de outubro de 2010
O Disco da Minha Vida XII
Bom, isto agora torna-se algo desonesto. Porque tenho de escolher um disco entre 3 ou 4, fantásticos, que considero estarem todos ao mesmo nível.
O disco de hoje é "The Cult of Ray", de Frank Black.
Frank Black, ou Black Francis, como quiserem (o seu nome verdadeiro até é Charles), é, toda a gente sabe, o antigo vocalista e principal compositor dos Pixies.
Para mim, como para muita gente da minha geração, os Pixies bateram demasiado tarde, para muita malta já depois de eles acabarem a sua primeira encarnação. Mas foi bem a tempo de deixar uma marca que, provavelmente, não desaparecerá durante as nossas vidas de amantes de música.
Mas esta não é uma mensagem sobre os Pixies. É uma tentativa de corrigir uma das grandes injustiças da música contemporânea. É que, mesmo para os fãs de Pixies, Frank Black a solo não existe. É mau ou, na melhor das hipóteses, é irrelevante. E isso é errado. Como se o tipo que escreveu todas as grandes músicas dos Pixies, de repente, deixasse de perceber alguma coisa de música. As if...
Foi o Amarelo quem me mostrou o Frank Black, depois de já ter sido ele a mostrar-me os Pixies. Em ambos os casos, estaca céptico, mas rapidamente a coisa mudou. Com Black, ele mostrou-me o seu primeiro disco a solo, homónimo, de 1993, menos de dois anos depois de os Pixies terem editado o derradeiro "Trompe le Monde".
A voz continuava lá. Aquela voz de eterno adolescente, entre o romântico freak e o rebelde alucinado. E isto vindo de um monstro de 100 kilos, gordo e careca, sem pinta absolutamente nenhuma.
E para além da voz, continuava lá o rock. O bom e velho rock.
Ao longo dos discos seguintes, perto de 15, foi mudando e apurando o som, que no início era relativamente semelhante ao que fizera antes. Em termos muito gerais, e fazendo a inevitável comparação com os Pixies, teremos de dizer que estes eram um som mais urbano, se por urbano entendermos uma cave rock num qualquer outro planeta. A solo, Black tem uma estrutura mais clássica de canção, e mais ligada às raízes do rock. Teve uma fase meio country, teve sim senhor, e foi bem boa. Teve outra mais pop, igualmente boa. Mas a sua música teve sempre duas coisas que estiveram sempre lá, misturadas com as outras coisas: o rock, sempre, e a grande capacidade para fazer grandes canções, feitas de adrenalina e de uma grande capacidade aditiva.
Escolhi "The Cult of Ray" como podia ter escolhido o grande "Pistolero", "Dog ín the sand" ou "Teenager of the ear". Podem agarrar num disco qualquer dele e só muito dificilmente não acertam com um grande disco.
Vi-o ao vivo, com a sua banda "The Catholics", há uma data de anos, na Aula Magna. Fui arrastado pelo malogrado Amarelo, até porque na altura não conhecia bem o seu trabalho a solo. Numa sala bem composta, o público foi bombardeado com um grande concerto, com três guitarras agressivas em palco, e nenhum baixo. A sala foi reagindo entre o entusiasmo e o espanto, para só ir ao rubro quando a banda tocou duas ou três músicas dos Pixies, nomeadamente "Mr. Grieves", que ia levando a casa abaixo.
Talvez como vingança por tudo querer ouvir os Pixies e não a sua nova banda, a verdade é que passei uma semana a ouvir mal, com um zumbido resistente nos ouvidos.
E ele é que tinha razão, e só vim a perceber mais tarde.
Deixo-vos uma das melhores músicas de "The Cult of Ray", curiosamente uma das músicas mais lentas e "baladeiras" que alguma vez fez. Não é muito representativa do seu estilo, mas é representativa do seu talento.
Dá-lhe, Charles.
O disco de hoje é "The Cult of Ray", de Frank Black.
Frank Black, ou Black Francis, como quiserem (o seu nome verdadeiro até é Charles), é, toda a gente sabe, o antigo vocalista e principal compositor dos Pixies.
Para mim, como para muita gente da minha geração, os Pixies bateram demasiado tarde, para muita malta já depois de eles acabarem a sua primeira encarnação. Mas foi bem a tempo de deixar uma marca que, provavelmente, não desaparecerá durante as nossas vidas de amantes de música.
Mas esta não é uma mensagem sobre os Pixies. É uma tentativa de corrigir uma das grandes injustiças da música contemporânea. É que, mesmo para os fãs de Pixies, Frank Black a solo não existe. É mau ou, na melhor das hipóteses, é irrelevante. E isso é errado. Como se o tipo que escreveu todas as grandes músicas dos Pixies, de repente, deixasse de perceber alguma coisa de música. As if...
Foi o Amarelo quem me mostrou o Frank Black, depois de já ter sido ele a mostrar-me os Pixies. Em ambos os casos, estaca céptico, mas rapidamente a coisa mudou. Com Black, ele mostrou-me o seu primeiro disco a solo, homónimo, de 1993, menos de dois anos depois de os Pixies terem editado o derradeiro "Trompe le Monde".
A voz continuava lá. Aquela voz de eterno adolescente, entre o romântico freak e o rebelde alucinado. E isto vindo de um monstro de 100 kilos, gordo e careca, sem pinta absolutamente nenhuma.
E para além da voz, continuava lá o rock. O bom e velho rock.
Ao longo dos discos seguintes, perto de 15, foi mudando e apurando o som, que no início era relativamente semelhante ao que fizera antes. Em termos muito gerais, e fazendo a inevitável comparação com os Pixies, teremos de dizer que estes eram um som mais urbano, se por urbano entendermos uma cave rock num qualquer outro planeta. A solo, Black tem uma estrutura mais clássica de canção, e mais ligada às raízes do rock. Teve uma fase meio country, teve sim senhor, e foi bem boa. Teve outra mais pop, igualmente boa. Mas a sua música teve sempre duas coisas que estiveram sempre lá, misturadas com as outras coisas: o rock, sempre, e a grande capacidade para fazer grandes canções, feitas de adrenalina e de uma grande capacidade aditiva.
Escolhi "The Cult of Ray" como podia ter escolhido o grande "Pistolero", "Dog ín the sand" ou "Teenager of the ear". Podem agarrar num disco qualquer dele e só muito dificilmente não acertam com um grande disco.
Vi-o ao vivo, com a sua banda "The Catholics", há uma data de anos, na Aula Magna. Fui arrastado pelo malogrado Amarelo, até porque na altura não conhecia bem o seu trabalho a solo. Numa sala bem composta, o público foi bombardeado com um grande concerto, com três guitarras agressivas em palco, e nenhum baixo. A sala foi reagindo entre o entusiasmo e o espanto, para só ir ao rubro quando a banda tocou duas ou três músicas dos Pixies, nomeadamente "Mr. Grieves", que ia levando a casa abaixo.
Talvez como vingança por tudo querer ouvir os Pixies e não a sua nova banda, a verdade é que passei uma semana a ouvir mal, com um zumbido resistente nos ouvidos.
E ele é que tinha razão, e só vim a perceber mais tarde.
Deixo-vos uma das melhores músicas de "The Cult of Ray", curiosamente uma das músicas mais lentas e "baladeiras" que alguma vez fez. Não é muito representativa do seu estilo, mas é representativa do seu talento.
Dá-lhe, Charles.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Clueless
Imagem que um tipo vai ser pai dentro de um mês. E que a sua mulher tem um furo no pneu do carro, nas redondezas de onde esse tipo trabalha. E que liga a esse tipo para a ir desenrascar. E esse tipo tem o telemóvel no bolso do casaco, nas costas da cadeira. E só vê uma hora depois…
E que este tipo anda a garantir há bué à sua esposa que “não precisas de mais nenhum número de emergência, quando for hora ligas-me a mim e pronto”.
E como raio vai esse ser hipotético, nesta situação puramente hipotética, defender-se das várias acusações que sobre si pendem, neste momento?...
E que este tipo anda a garantir há bué à sua esposa que “não precisas de mais nenhum número de emergência, quando for hora ligas-me a mim e pronto”.
E como raio vai esse ser hipotético, nesta situação puramente hipotética, defender-se das várias acusações que sobre si pendem, neste momento?...
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
LOST
Já reparou que, aquando da apresentação daquela bela merda chamada Orçamento do Estado para 2011, foi Teixeira dos Santos, o cabeça de giz, a levar com as bolas na cabeça?
Já reparou que, quando foi hora de reagir às propostas do PSD para o dito Orçamento, quem apareceu foi esse bonifrate chamado Pedro Silva Pereira?
Se reparar bem, a última vez que o culpado desta merda toda apareceu foi no fim de semana, numa "iniciativa cívica de defesa da escola pública". Que por acaso era uma iniciativa "cívica" pejada de dirigentes e militantes socialistas, mascarados de sociedade civil.
É sempre bom ver que, em momentos de crise, há uma liderança presente.
Já reparou que, quando foi hora de reagir às propostas do PSD para o dito Orçamento, quem apareceu foi esse bonifrate chamado Pedro Silva Pereira?
Se reparar bem, a última vez que o culpado desta merda toda apareceu foi no fim de semana, numa "iniciativa cívica de defesa da escola pública". Que por acaso era uma iniciativa "cívica" pejada de dirigentes e militantes socialistas, mascarados de sociedade civil.
É sempre bom ver que, em momentos de crise, há uma liderança presente.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
The Specials
Não, não me fui embora. Ainda aqui ando.
Mas o trabalho anda a dar cabo de mim. Digamos que o Orçamento do Estado me está a lixar ainda mais que vocês, o que é bastante.
Há muita coisa para ser dizer, e será dita, por isso continuem a espreitar o que por cá se passa.
Entretanto, de algures entre a Jamaica e Coventry, a minha música preferida de uma das minhas bandas favoritas.
Enjoy e até já.
Mas o trabalho anda a dar cabo de mim. Digamos que o Orçamento do Estado me está a lixar ainda mais que vocês, o que é bastante.
Há muita coisa para ser dizer, e será dita, por isso continuem a espreitar o que por cá se passa.
Entretanto, de algures entre a Jamaica e Coventry, a minha música preferida de uma das minhas bandas favoritas.
Enjoy e até já.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
domingo, 17 de outubro de 2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
O GOS
As novidades do Grande Orçamento Socialista (GOS) começam a ser divulgadas.
E é bastante fácil de resumir o que traz: impostos, mais impostos e....bem, mais impostos.
Vai tudo a eito. Sobe o IVA nos livros, esse produto de luxo. No leite com chocolate ou com cálcio, esse luxo. Aumenta-se também a tributação dos prémios literários, essa instituição burguesa. E aumenta-se até, imagine-se, os prémios associados às medalhas conquistas pelos nossos deputados paralímpicos, esses cabrões desses mamões que andam a dar cabo do défice. O grande camarada Sócrates conseguiu ainda aumentar o IVA sobre as flores e plantas ornamentais...como os bonsais.
Neste GOS, tudo é um luxo, e taxado como tal.
O Grande Camarada Sócrates, esse génio da política, da engenharia e do inglês técnico, conseguiu o que se pensava impossível: instalar em Portugal a cartilha económica da Albânia ou da Roménia nos anos 80, em que até o leite das criancinhas era um luxo dos ricos decadentes. E nem precisou de instalar o tenebroso comunismo para o conseguir.
E é bastante fácil de resumir o que traz: impostos, mais impostos e....bem, mais impostos.
Vai tudo a eito. Sobe o IVA nos livros, esse produto de luxo. No leite com chocolate ou com cálcio, esse luxo. Aumenta-se também a tributação dos prémios literários, essa instituição burguesa. E aumenta-se até, imagine-se, os prémios associados às medalhas conquistas pelos nossos deputados paralímpicos, esses cabrões desses mamões que andam a dar cabo do défice. O grande camarada Sócrates conseguiu ainda aumentar o IVA sobre as flores e plantas ornamentais...como os bonsais.
Neste GOS, tudo é um luxo, e taxado como tal.
O Grande Camarada Sócrates, esse génio da política, da engenharia e do inglês técnico, conseguiu o que se pensava impossível: instalar em Portugal a cartilha económica da Albânia ou da Roménia nos anos 80, em que até o leite das criancinhas era um luxo dos ricos decadentes. E nem precisou de instalar o tenebroso comunismo para o conseguir.
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