segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Boa semana, camaradas



Cortesia de Beth Orton.

Alma

Fui um dos 55 mil felizardos que, ontem à tarde, esteve no Estádio da Luz. Foi um daqueles jogos, daqueles momentos, em que me sinto muito feliz por dizer "sim, eu estive lá". Sim, eu sofri. Gritei, saltei, vibrei.
Um equipa já sem pernas (nota-se à distância) mas com um coração e uma alma que movem montanhas.
Sim, sabemos que não vamos ser campeões. Sim, sabemos que há outras competições que temos mais hipóteses de ganhar. Sim, sabemos que é difícil, que às vezes as pernas já não respondem e que o mal, feito por outros no início do ano, está feito.
Mas 55 mil adeptos, apoiarem desta forma um clube que está a 8 pontos do rival, é um orgulho. Ontem, foram os adeptos, eu incluído, que não permitiram à equipa que desistisse. E o golo do fenómeno Coentrão (que jogador! que atitude!) foi o fim perfeito para uma tarde de emoção.
Ontem batemos o recorde de assistências na Liga portuguesa esta época. Com o campeonato perdido, e o povo vai. Porque ama esta equipa, que lhe dá tudo em troca. Porque ama futebol, a beleza que demonstramos dentro de campo. E porque, sabendo como este campeonato nos foi roubado, fazemos questão de estar sempre lá para apoiar o nosso clube, para apoiar o Glorioso.

Que outro clube, praticamente arredado do título, faria o que nós conseguimos? É difícil.
Dos 10 jogos mais vistos este ano em Portugal, seis foram na Luz, sete envolveram o Benfica.

Os dez jogos com mais assistência à 21ª jornada

1- Benfica-Marítimo (54.991)
2- Benfica-V. Guimarães (54.927)
3- Benfica-Sporting (51.899)
4- F.C. Porto-Benfica (49.817)
5- Benfica-Académica (48.905)
6- F.C. Porto-Sp. Braga (47.617)
7- Benfica-Sp. Braga (43.317)
8- F.C. Porto-Beira Mar (43.209)
9- F.C. Porto-Portimonense (40.416)
10- Benfica-Rio Ave (38.456)

Só pela curiosidade, o jogo com menos espectadores em toda a época foi o Naval-Portimonense, com uns esmagadores 316 espectadores.
 
PS - adorei os tipos do Marítimo reclamarem da arbitragem no final, apesar de terem sido beneficiados. Adorei sobretudo, depois de andarem todo o jogo a fingir lesões e a fazer anti-jogo, terem ficado lixados por o árbitro ter dado o encontro por terminado logo a seguir ao golo do Glorioso. Se não tivessem queimado tanto tempo, talvez tivesse sido diferente. Assim, foi só uma deliciosa lição que levaram. Para a próxima, menos teatro, menos autocarro, e mais futebol.

Coincidências

As notícias são da semana passada, mas vale a pena relembrar.

Noronha do Nascimento, o senhor que na foto está ao lado do seu grande amigo José Sócrates, é o presidente do Supremo Tribunal de Justiça. E é também o senhor originalmente determinadíssimo em destruir as escutas que envolvem José Sócrates, no caso Face Oculta.
Soube-se há algumas semanas que o juiz com o caso, o magistrado Carlos Alexandre, não tinha ainda destruído as escutas, defendendo que os implicados deviam ter acesso a elas e pronunciar-se sobre a destruição.
Sabemos agora que Noronha do Nascimento, cujas ligações à Maçonaria estão ainda por se provar (yeah, right), está desesperado. Qual rapariguinha histérica, vem agora insistir que as escutas sejam imediatamente destruídas ou, se o juiz Carlos Alexandre tiver "pruridos" desse tipo, que as envie ao próprio Noronha, que se encarregará do servicinho.
Mais, tão zangado está Noronha, que ameaçou Carlos Alexandre com um processo disciplinar, caso desobedeça.

Outro episódio que não tem nada a ver com isto:
o Ministério da Justiça quer designar outro juiz para co-liderar o Tribunal Central de Instrução Criminal, que é responsável por todos os grande casos de corrupção. Este tribunal é liderado actualmente por Carlos Alexandre, que assumiu a liderança de alguns dos processos que envolvem gente poderosa, como o caso Portucale ou dos Submarinos. Perante inúmeras pressões, fez o seu trabalho, denunciou pressões, acusou à mesma.
O argumento para colocar lá outro juiz (que passaria a dividir os casos com Carlos Alexandre) é que este último não está a dar vazão, e tem demasiados processos pendentes. Acontece é que os números que constam na decisão do Ministério da Justiça, e que estiveram na base formal dessa decisão, estão errados. Muito e grosseiramente errados.

Por último:
Noronha de Nascimento é o tipo que, no final de 2009, em pleno furacão noticioso "Freeport", o que veio defender o senhor? Que fosse criado um órgão com poder disciplinar sobre os jornalistas, com parcial designação política.

Se as escutas são assim tão irrelevantes, para quê tanta pressa? Para quê tanto nervosismo?

Bom, não é difícil juntar os pontos.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Zero Dois

E não é que repetimos o resultado e "matámos o borrego"?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

I love the smell of napalm in the morning

Kadafi, ou Gadafi (para os tipos que gostam de dizer dinossáurios), voltou a falar na televisão, e afirmou que os manifestantes “estão drogados”.


Estes responderam que não, querido líder, deve ter sido de um croissant com creme que comeram no final da noite.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sócrates does "the Deolinda"

Esta quinta-feira, em plena febre Geração Parva/Deolinda, o grupo parlamentar do PS promove um debate sobre a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Com a presença de Helena André e Pedro Silva Pereira. Pois.

Passo a transcrever parte do take da Lusa sobre a iniciativa:

"O grupo parlamentar do PS promove na quinta-feira um debate sobre a inserção dos jovens no mercado de trabalho, em que intervêm a ministra do Trabalho, Helena André, o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira. A realização deste debate foi anunciada pelo líder da bancada socialista, Francisco Assis, na terça-feira, depois de recusar o projeto-de-lei social-democrata para "medidas "transitórias e excecionais de promoção do emprego". "A precariedade do trabalho jovem é um dos problemas com que o país se confronta e que tem que ser enfrentado", sustentou, recusando medidas que possam aumentar essa "precariedade". "O Governo tem vindo a tomar medidas de incentivo e de promoção do trabalho jovem. Temos, porém, consciência que este é um problema que se coloca, não apenas em Portugal, mas em vários países", afirmou na altura."

Ora aí está.
Esta gente, realmente, não entende.
Não entende que o marketing não resolve tudo, que as lágrimas de crocodilo já não convencem, que já ninguém os suporta. Que estão a mais, e que cada dia que se aguentam só fazem pior. Fazer este debate agora, marcado na semana passada, mostra o sentido oportunístico da iniciativa, como se alguém ainda caisse nesta. Mais, ter como grandes convidados de honra Silva Pereira, o clone lambe-botas do Sócrates, e Helena André, essa campeã da precaridade cuja última iniciativa foi cortar as indemnizações em caso de despedimento, roça o insulto.

Subsiste a dúvida

Aparentemente, a notícia do dia foi o facto de uns polícias terem arreado num preso, por ele se recusar, há uma semana, a limpar a cela. Eu percebo o politicamente correcto, que eles estão presos mas também têm direitos, bla bla bla.
Mas eles estão presos. Fizeram merda. Há regras. Uma delas é limpar a merda da cela.
Vejo toda a gente condenar o incidente, e eu também não gostei de ver, mas que raio deviam os polícias ter feito? Pedir com jeitinho? Meter uma acção em tribunal?
Enfim.
Com tantos problemas na Justiça, foi por causa disto que o Ministro veio falar em público. Ou seja, esta história pelo menos serviu para alguma coisa: para nos lembrarmos que ainda existe um Ministro da Justiça.

No entanto, no meio do ruído, parece-me que toda a gente falhou a verdadeira história.

Depois de um polícia com um escudo do Incrível Hulk, para quando escudos do Capitão América, ou da Hello Kitty?

O Charlie Chaplin e o Buster Keaton também eram muito bons



Eu até gosto das músicas do joão Coração.

Mas só nas partes em que ele está caladinho.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Como não acreditar em alguém com amigos destes? II

 

Como não acreditar em alguém com amigos destes?

dois zero


Contra tudo e contra todos

Desde há vários anos, o Sporting para mim é definido por dois elementos: submissão aos corruptos do Norte e anti-benfiquismo primário.
Dado que a situação em que se encontram se deve exactamente a estes elementos - incapacidade de se afirmar por si, e apenas por oposição ao Glorioso - tudo o que de mau acontece ao Sporting me dá imenso gozo.
Hoje foi só mais um desses episódios. Foi mais giro porque foi na casa de banho, porque é sempre giro irmos lá e acabarmos o jogo a dar-lhes olés, porque mesmo levados ao colo demonstraram a equipa patética que são.
Perante a incapacidade de responder à absoluta superioridade do Campeão, escolheram a táctica dos fracos: as queixinhas e o teatro. Cada vez que tinham um jogador encarnado ao lado, era mergulho certo para o relvado. Como tinham do seu lado o Artur Soares Dias - aliado dos seus aliados - a coisa até podia ter resultado. Aliás, este jogo é um exemplo perfeito de como um árbitro, incompetente ou mal-intencionado, pode estragar um jogo. O cartão ao Gaitan é absurdo e o primeiro ao Sidnei é risível. Mas nem assim os submissos foram capazes, jogando mais de uma parte beneficiando de um favor do juiz. E a segunda parte, com o Benfica a dar-lhes a iniciativa de jogo, foi a mais manifesta prova de incapacidade de fazer seja o que for, com os ataques descabelados e sem nexo dos submissos a baterem na muralha vermelha.
Parabéns ao Campeão. Empurrados, mais uma vez, para baixo, nem assim foram travados. Grande, grande carácter, e muito orgulho da minha parte.

PS - O melhor em campo? Anderson Polga, claro, com intervenção decisiva nos dois golos. Melhor que ele só o apitadeiro azulado Soares Dias.
PS2 - O supremo prazer foi o Benfica marcar o primeiro golo quando os submissos nas bancadas gritavam o seu cântico preferido, no qual gritam por nós a plenos pulmões. Obrigado pelo vosso interesse. Continuem a ser pequeninos e "sigan chupando", como diria Diego.
PS3 - Este post é dedicado àqueles que este fim de semana jogaram de camarote, que anteciparam jogos e que durante semanas matraqueram com "a pressão dos 11 pontos". Tantos pontos à frente e tantos nervos?...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Um sentido agradecimento

Há jogadores que são assim. Ficam no nosso coração, aconteça o que acontecer.


Pedro Mantorras, o Torras, é um desses casos. Desde o momento em que vestiu a camisola do Glorioso, e atrevo-me a dizer para sempre, conquistou não apenas o respeito e admiração de benfiquistas e adeptos em geral, mas sobretudo um imenso carinho que se vive, forte, até hoje.
Mais uma pérola negra, das quais a história do Benfica é fértil e farta. Um órfão de guerra e menino de rua em Angola. Um talento fora do comum. Uma humildade comovente. Uma vontade de triunfar.


Numa frase, que ficou para os benfiquistas como a sua definição, Mantorras era "A Alegria do Povo".
A vida, que lhe foi madrasta desde sempre, não o deixou triunfar como merecia. Com o talento que tinha, se continuasse a evoluir podia ser um dos melhores do mundo. Acabou por não acontecer, por azar da vida e incompetência dos homens, mesmo os de ciência. Não triunfou como merecia, mas triunfou no coração de todos os benfiquistas, que nunca o esquecerão e nunca se negarão a aplaudi-lo, esteja onde estiver, faça o que fizer.
Pedro Mantorras acabou hoje a sua carreira. Feita de luta, glória, tristeza e sacrifício. Como benfiquista, só tenho de lhe agradecer todos os momentos que nos deu, e por ser quem é, enquanto ser humano.
A carreira acaba hoje, mas Mantorras é e continuará a ser "A Alegria do Povo".

Obrigado, Pedro.

PS - O autocarro do Benfica foi apedrejado novamente, na visita da equipa de voleibol do Glorioso a casa do Guimarães. Tal como nos anteriores ataques sistemáticos, não houve detenções. Continua a impunidade, em algo que não tem nada a ver com desporto. É uma questão de tempo até haver mortes, e ninguém faz nada.
Chorem lágrimas de crocodilo depois, e venham então fazer investigações.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A razão pela qual tento sempre ir ao cinema na sessão da meia-noite

Hoje à tarde, sessão das 17 horas, sala cheia no Monumental.

A senhora ao meu lado:
a) tinha pisado merda, com os dois pés, antes de entrar
b) ou era toda ela um grande monte de merda, com uma peruca e uns óculos
c) ou tinha um cão morto dentro da boca

Qualquer que seja a verdade, não foi agradável.

PS - o filme dos Cohen é bem porreiro

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Provavelmente o post mais longo da história deste blog

Quando apareceu o bruá à volta da nova música dos Deolinda, a coisa pareceu-me muito relevante, e fiz a habitual nota mental de reflectir sobre o assunto aqui no blog. Depois, o trabalho e a criança roubaram-me o tempo todo. Os dias foram passando e, de repente, toda a gente estava a falar do assunto. Aí, numa reacção naturalíssima que a minha senhora chama de “ser do contra”, perdi a pica de escrever. Custa-me escrever sobre um assunto que conta com a opinião de Miguel Sousa Tavares. E custa-me ainda mais dar-lhe 15-0 neste campo, e a mim ninguém pagar para dizer disparates e escrever maus livros.
Adiante.
Toda as gerações precisam de um hino, de uma causa, de uma bandeira. Eu cá não sou grande fã dos Deolinda, mas acho que esta música serve perfeitamente o propósito de hino de uma geração.
É bom dizer já, à laia de disclaimer, que esta coisa das gerações é perigosa e tem muito que se lhe diga. Não gosto particularmente da minha geração, nem de qualquer outra. Conheço muita gente da minha idade que é idiota chapada, e pessoas mais velhas, e mais novas, que são cinco estrelas. Ou seja, tudo o que vou escrever tem de ser lido com o filtro da generalização, mas não sendo possível analisar toda a gente, é a única forma de fazer isto.

Em primeiro lugar, parece-me muito bem a ideia – ainda que perigosa – do choque de gerações. Tal como de choque social, de ricos contra pobres, acho muito bem. E necessário. Esta paz podre do politicamente correcto, em que nenhum exagero é permitido, só serve os medíocres e os burocratas, e tem-lhes servido muito bem. Demasiado bem. Por mais injusto que possa ser, é importante que haja um choque geracional, mesmo que ninguém ganhe. E a música dos Deolinda teve esse grande mérito, de colocar o país a discutir apaixonadamente um assunto relevante.

É óbvio e indesmentível que temos um severo problema de precariedade em Portugal. Afecta todas as faixas etárias, mas sobretudo os jovens que tentam (alguns há uma década) entrar no mercado de trabalho.
Uma das interpretações que me surpreendeu e que acabou por ganhar peso na opinião pública foi a de transformar este problema numa questão de demasiados direitos conseguidos pela geração anterior. Estes são vistos como uns glutões, uns incompetentes, que se alaparam a um lugar na Função Pública sem saberem ler nem escrever e de lá não saem nem à lei da bala, em nome dos “direitos adquiridos”. Acho chocante a forma como a Direita procurou, assim, apropriar-se de uma mensagem que, em momento algum, faz menção a essa geração privilegiada anterior. Quem potencia a precariedade é o Governo das últimas décadas, e muito poucos governaram à Esquerda. E os patrões, que não me parecem ser grandes partidários dos “direitos adquiridos”. E depois, não nos esqueçamos que este país tem menos de 700 mil funcionários públicos, que são sempre os maus da fita. São demasiados, é óbvio, mas é redutor culpá-los de tudo.

Mas a verdade é que este assunto é demasiado complexo. E, como tal, é demasiado simplista culpar toda a geração anterior pelo que se passa com a nossa.
Atenção, eu culpo a geração anterior de muita coisa. Acho que nos legaram uma sociedade de merda, desumanizada e injusta . Acho que se aburguesaram de forma demasiado entusiasta, depois de os ver com grandes bigodaças no 25 de Abril e agora obcecados com o status e os carros, e a votarem PS e PSD. Mais, é uma geração que continua a cobrar moralmente o facto de terem feito a Revolução, quando de facto foi, na sua esmagadora maioria, uma geração fraca que só acorreu às ruas quando as tropas o fizeram primeiro. E, sobretudo, é uma geração que não pode encher a boca com o 25 de Abril, e terem hoje o comportamento que têm.
Caíram que nem patinhos dóceis em todas as armadilhas do capitalismo, amaram o Guterres e o Cavaco, e legaram-nos isto: necessidade de consumo desenfreado, incapacidade social, desemprego e frustração.
Mas não a culpo pelos direitos adquiridos. Até porque, também os dessa geração, estão a ser paulatinamente espoliados. Quem, no seu perfeito juízo, abdicaria dos seus direitos adquiridos e cederia o seu lugar a um mais jovem, sabendo perfeitamente que nunca mais arranjaria emprego, para se reformar antecipadamente seria penalizado pelo Estado, etc, etc?

E vamos agora à nossa geração. Em primeiro lugar, como pode ter autoridade moral para falar, e votar como vota? Por outro lado, em muita coisa somos privilegiados. Quantos dos nossos pais faziam férias no estrangeiro como nós fazemos? Quantos iam jantar fora com a mesma frequência? Quantos tinham de ter carro, aliás um carro por pessoa? Quantos tinham os putos, nós, em escolas privadas caríssimas, como tanta gente faz hoje? Quantos de nós nos vimos limitados à quarta classe? Quantos fomos mandados para a selva para mater em nome de um conceito errado de país?
Hoje todos temos mp3, computador. Roupa boa, mesmo que comprada em saldos. Vamos à bola, que é caríssima, apanhamos grandes camadões em bares que nos roubam descaradamente ao cobrar 4 euros por uma imperial. Gastamos fortunas a comprar DVD’s na Amazon. Ténis bons, telemóveis, iPads e merdas afins.
Atenção, não defendo a austeridade do estilo de vida de outrora. Prefiro torrar desde que possa e não ter grandes poupanças, mas tenho que estar disposto a aceitar que isso me deixa exposto se tiver um azar sério na vida. São compensações diferentes. Há que escolher e aceitar as consequências dessa escolha.

O grande problema da nossa sociedade não está nos direitos adquiridos: está na completa ausência de meritocracia. Quantos de nós temos chefes – até da mesma idade que nós – que são nulidades completas, ou pelo menos piores profissionais que nós? E apenas porque conhecem as pessoas certas, lambem as botas certas, etc, etc. Portugal é um país sem mobilidade social. Os que nascem em famílias ricas continuam ricos, e através da sua rede dão-se bem na vida. Infelizmente, a única mobilidade social que existe em Portugal é dada pela política, vide José Sócrates e Armando Vara, e sabemos bem como isso aconteceu. Em Portugal, a grande maioria das pessoas de qualidade não tem oportunidades. Achar que isso acontece porque há tipos mais velhos lá alapados é uma falácia. Não têm oportunidades porque não são julgadas pelo seu mérito. Este é que é o ponto. Porque vivemos numa sociedade corrupta, de aparências, mesquinha. E escolhemos para Primeiro-Ministro um homem profunda e convictamente corrupto. Temos, então, o que merecemos.

Como já disse aqui uma vez, o problema é que há umas 300 pessoas que mandam neste país, a esmagadora maioria medíocres, para ser simpático. Essas escolhem 600 igualmente más, mas que funcionam no mesmo registo mental. Por cá, não se contrata ninguém que possa vir a fazer sombra ao chefe. Contrata-se um merdas, que funcione da mesma forma, e que toda a vida estará grato pelo favor que lhe fizeram. E que por sua vez fará outros favores, promoverá mais medíocres, etc, etc.
O resultado é termos um tecido económico e social composto por uma pirâmide de miseráveis, incultos, fracos e co-dependentes.
Agora, com este panorama, ponham esta merda a funcionar, se conseguirem. Assim, sem mudar isto, eu não sei como.

O que sei é que isto assim, como está, é um crime. Vai dar cabo do país, mas quem manda não está preocupado com o país. Para eles funciona, sempre funcionou, portanto não há qualquer estímulo para mudar seja o que for. O que temos nas mãos é o resultado de décadas disto, e o resultado não podia ser diferente. Milhares e milhares de jovens qualificados que saem do país, porque querem ser reconhecidos pelo seu valor, porque querem viver condignamente, porque aqui estão fartos de bater contra um muro de frustração e indiferença.
Um país que é um gigantesco e gritante ‘case study’ de gestão danosa.

Este assunto é tão rico, tão complexo e toca tantas coisas importantes que me excedi no tamanho da posta. E tanta coisa, obviamente, ficou por dizer. Este é só mais um contributo, de um membro desta geração que, com sorte e esforço, conseguiu até agora manter a cabeça de fora de água. Gostaria apenas que nos concentrássemos em lutar contra os 300 ou 600 ou 3000 merdas que mandam nisto e que nos deixaram aqui. Porque reduzir isto a uma luta geracional vai dar apenas a um desvio de atenções que, na prática, nos deixará na mesma.

PS – tenho também de aplaudir a forma discreta como os Deolinda se comportaram, ao tornarem-se os ‘media darlings’. Toda a gente fala deles, e eu não os ouço falar. E ainda bem. Fossem outros os protagonistas e não faltaria a óbvia tentativa de aproveitar a onda.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Murakami

"Karoshi" é o nome que os japoneses dão a um tipo que se mata a trabalhar.

Não confundir com os tipos que "ajudam" a estacionar o carro.

Justiça

Só mais um disco fabuloso de 2009 e ao qual ninguém ligou nenhuma.

Este é "Jim Cain", do album "Sometimes I wish We were an eagle", de Bill Callahan.

Sobre os livros

E sobre a relação que temos com eles. E sobre a pirataria digital, claro.

Agora anda na moda o iPad. Que acho que dá para ler livros. O Kindle também dá para ler livros, aliás só dá para ler livros, acho. O iPad não, é tipo bimby, dá para tudo e mais um par de botas. Eu não tenho nem conto ter nenhum dos dois. Se fosse para ler, acho que preferia ter um iPad. Afinal se faz o mesmo que o outro e mais um monte de cenas giras, porque raio alguém optaria por um Kindle? Só há uma resposta possível. É que o Kindle é para quem gosta de ler (ia dizer livros, mas eu cá gosto de livros e por isso mesmo não acho piada ao Kindle); o iPad é para quem gosta de se armar aos cucos.
Acho que só conheço uma pessoa que tem um iPad. É o meu chefe. Anda o dia todo a brincar com aquilo em vez de trabalhar. Dá-lhe mais atenção do que à mulher e aos filhos. E acho que, desde que o comprou, o meu chefe é tipo parar ter dormido mais vezes com o iPad do que com a mulher.

Falo disto porque me apercebi que, na Amazon, em muitas situações sai mais caro comprar a versão digital de um livro (download, ou sacar, em português) do que comprar o livro propriamente dito, e tê-lo entregue na nossa casinha.
E isto é algo que não consigo entender. Em termos de custos, um download custa o quê? 30 cêntimos? 10? Nada?! É um ficheiro, já lá está, é só carregar no send ou que raio é e...voilá. Ou seja, custos virtualmente inexistentes para o vendedor. Já um livro é preciso, no mínimo, gastar guita na impressão e no papel, bem como na deslocação física do objecto.
É um mistério esta diferença.
Cheira-me que esta discrepância de preços só existe porque estão na moda e porque, com os livros digitais, a malta compra livros em barda. Vão ao site e "trazem" um monte deles. Não é preciso espaço nas estantes. É por isso que a malta acaba por não ligar ao monte de livros, tal como eu não ligo nenhuma a metade dos albuns que saco da net. É demasiado, e não há o compromisso físico de ter um objecto que, do tacto ao cheiro, reclama a nossa atenção. Eu já tenho a casa cheia de cd's, mas se estes fossem mais baratos deixava de gamar música na net. É inevitável que, com o objecto na mão, lhe dê mais atenção. A capa, o livrinho, onde o vou arrumar no meio dos outros, etc, um mundo de rituais que constroem a beleza que é ser um amante de livros e de discos.
Confesso que há outra coisa que não entendo. Se os e-books são tão bons, porque raio não há ainda pirataria a sério? Eu tenho outra teoria. Porque os e-books só são bons para meia dúzia de cromos (sei que estou a ofender a malta, mas enfim), que estão realmente empenhados em dar estilo com o seu Kindle.
Eu cá não me sinto minimamente atraído pelos e-books. Mas quando, ainda por cima, são mais caros que os livros a sério...not gonna happen.
Uma teoria dos Kindlemaniacs é que, assim, podem levar um monte de livros para todo o lado. Mas, sejamos realistas, será que nós vamos assim tão frequentemente para o Nepal, escalar o Evereste ou fazer férias na Amazónia profunda?

Eu adoro livros. Já ficheiros informáticos é coisa que me deixa muito indiferente.
No fundo, o que quero dizer é isto: o livro existe há tantas centenas de anos porque é uma coisa boa, útil, fácil. É básica e rudimentar, mas funciona. Será que estamos assim tão preguiçosos ou tecnocratas para precisarmos de uma forma mais fácil de ler um livro?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Mão à plamatória

Para qualquer observador político meramente informado, como nós, este senhor é aquele que levou na boca de uma multidão de bárbaros enfurecidos. Foi lá em cima, e desta vez não foram os SuperDragões.

Sempre achei este senhor, digamos, uma poia.
Um vermezito, um borra-botas como tantos xuxalistas que por aí andam.
Mas a verdade é que, numa conjuntura extremamente difícil para o PS, este senhor tem feito o seu trabalho com o mínimo de seriedade. Mais, de todos os filhos da puta de xuxas que vejo falar na televisão, este é o único tipo que consigo ouvir sem, a la Elvis, me apetecer agarrar num revólver e disparar sofregamente sobre a televisão.

É claro que é um bexigoso e levou nos cornos em público, por isso nunca irá realmente longe. Mas tenho que admitir que ele até está a ganhar algum do meu respeito. Como tal, retiro a caraterização de "poia".
Pronto.

Inconfessável












Pá, eu não gosto lá muito dos Deolinda...